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Por Manuel Augusto Dias

TORRE DE VALE DE TODOS (8)

Ainda a imagem de Nossa Senhora da Graça

Tendo como fonte principal um artigo da autoria do Prof. António Lopes do Rego, publicado no "Serras de Ansião", em 15 de Maio de 1991, continuamos a revelar algumas curiosidades acerca desta bela imagem que enriquece o património artístico do concelho de Ansião e, em particular, o da bela Igreja Matriz da Torre de Vale de Todos.

Já sabemos que se trata de uma obra do mestre conimbricense João de Ruão, esculpida há quase 500 anos (mais concretamente em 1537), a troco de 5$000 réis (importância bastante avultada para a época).

O que é menos conhecido é o seu peso, a sua inspiração e razão de ser.

Ora, segundo aquele autor, a imagem, como se sabe, feita em pedra de Ançã, pesa nada mais nada menos que 15 arrobas. Essa será a principal razão por que não sai em procissões.

Quanto à sua concretização já sabemos que resultou da promessa de um marinheiro que acompanhou o famoso descobridor Pedro Álvares Cabral na sua viagem de 1500, quando descobriu o Brasil. O que não sabíamos é que esta Nossa Senhora da Graça da Torre de Vale de Todos é uma cópia da de Nossa Senhora da Esperança que acompanhou aquele navegador ao Brasil e que está guardada na Igreja da sua terra natal, Belmonte.

Para conhecer ambas as imagens e, assim, poder compará-las o Prof. Lopes do Rego deslocou-se propositadamente a Belmonte. Leia-se o que concluiu dessa analogia:

«os mesmos elementos – a Virgem, o Menino Jesus, a Pomba e a Espiga, nas mesmas posições. Há contudo uma diferença que saltou à minha observação: a escultura de Belmonte retrata uma imagem de mulher com feições bem vincadas. A Virgem da Torre de Vale de Todos, dá-nos a impressão de uma mulher jovem».

A razão para tal diferença dever-se-á ao facto do artista ter uma filha que morreu com 19 anos de idade. Em memória da filha, que adorava, João de Ruão esculpiria as suas feições em todas as esculturas femininas que daí para diante viria a executar. Eis a razão da jovialidade e graça da Senhora da Torre de Vale de Todos.

Entre a Torre de Vale de Todos e o Brasil há, pois, uma ligação umbilical que tem na linda Nossa Senhora da Graça uma intermediária sobrenatural. Ela resultou da promessa de um marinheiro que acompanhou Pedro Álvares Cabral nessa sua histórica viagem do princípio do século XVI e regressou são e salvo (recordemos que Pedro Álvares Cabral ia e foi à Índia, embora pelo caminho para lá tivesse descoberto esse enorme território a que mais tarde foi dado o nome de Brasil, mas que naquela altura foi baptizado de "Terra de Vera Cruz" como escreveu Pêro Vaz de Caminha na sua famosa carta então enviada ao Rei D. Manuel I).

Ela (Nossa Senhora da Graça) continuou a acompanhar muitos dos que rumaram ao Brasil à procura da graça de uma vida melhor.

A eles se refere, assim, o Prof. António Rego: «o que é certo é que todos os homens que iam para o Brasil levavam no interior da tampa da sua mala uma "litografia" de N.ª Senhora da Graça por que era destino de quase todos o Brasil. Um rapaz que fosse ao Alentejo trabalhar como aguadeiro e, um ano de ceifa, emigrava logo para esse país. / A fé dos que partiam para o Brasil estava na verdade ligada a N.ª Sr.ª da Graça, pela mesma razão que Pedro Álvares Cabral levou N.ª Sr.ª da Esperança na sua Caravela a qual inspirou a Fé, como já foi dito em todos os homens de Vale de Todos que teriam ido na mesma embarcação».

Quis o destino que alguns desses emigrados angariassem fortuna no grande "país irmão" e, não esquecendo a terra natal, contribuíssem generosamente para muitos benefícios locais, sobretudo na Igreja onde foram baptizados e aprenderam a venerar a "Senhora" que sempre avivou a sua fé: o relógio da Torre, a renovação da pintura de N.ª Sr.ª da Graça, o sino grande (que se pensa ser o maior de todo o concelho de Ansião), a pintura do tecto da Igreja, a aquisição dos bancos da Igreja, renovação do Altar Mor e da Capela da Sagrada Família, entre outros.

A Senhora da Graça continua a ser um elo muito forte entre toda a comunidade humana natural da Torre de Vale de Todos, vivendo cá ou noutras paragens.