As rádios locais e a política

 

 

  1. Ponto de partida
  2. Teremos que distinguir rádios locais e rádios locais de inspiração cristã, e é destas que vamos falar. Toda a gente sabe o que são rádios locais, mas talvez nem todos se dêem conta o que são as n/ rádios locais de cariz cristão. Têm o alvará para uma cidade ou um concelho. Têm por isso uma relação de proximidade, identificam-se com um povo, com as aspirações duma região, porta-vozes do meio que servem. Mas, não são rádios confessionais, não têm um estatuto semelhante à Renascença, não são voz oficiosa da Igreja... Quando são de inspiração cristã é porque cristãos, clérigos ou leigos, associada ou individualmente, quiseram assumir o desafio de fazer com que a Igreja, directa ou indirectamente, assumisse, por seu intermédio, a sua missão de comunicar, porque desde sempre, por natureza, ela deve estar ao serviço da Boa Notícia e da comunicação entre os homens.

    Feita esta distinção, a nossa vocação clarifica-se ainda mais, quando sabemos que existe uma tentação de algumas rádios locais se colarem ao poder político-partidário local, talvez por uma questão de sobrevivência, dada a escassez de meios nalgumas regiões, ou, o que me parece mais grave, terem de vender-se a grandes grupos (económicos ou religiosos) com interesses monopolistas, perdendo completamente a sua característica de identificação, como vozes duma região. Ainda assim, as rádios de inspiração cristã são, na minha opinião, das mais livres, pois não negando os valores humanistas e cristãos por que procuram pautar a sua acção, mantém a independência, face ao poder político, económico ou religioso. Como dirigente associativo radiofónico de inspiração cristã, posso testemunhar que nunca recebemos qualquer directiva, pressão ou tentativa de orientação por parte de qualquer responsável da Igreja Católica. E porque temos que ser claros, o mesmo não se passa quando tem havido iniciativas de aquisição destes meios por parte de seitas religiosas, em que foi o próprio poder político que teve de legislar para impedir esse grave desvio. Permitam-me ainda que testemunhe o cuidado extremo de evitar tentativas de influência ou mesmo de pressão por parte dos diversos grupos partidários. Em suma, paralelamente a todas as rádios locais, que procuram ser livres e isentas, ao serviço duma região, também as de inspiração cristã, têm procurado ser a voz dos que não têm voz.

  3. O que somos
  4. Sabendo que, além do mais, não pautamos a nossa acção, com a orientação duma Rádio Maria, como no Maputo, ou da Radio Aparecida e Milícia da Imaculada, no Brasil, entre tantas outras, com uma extraordinária acção apostólica, que bem conheço, através da VOX - Associação Mundial das Rádios de Inspiração Cristã Lusófonas, não deixa de ser menos apostólico o trabalho das rádios associadas à ARIC, em que a inspiração cristã pode estar ligada, directa ou indirectamente à Igreja Católica, através dos seus estatutos, dos seus programas ou dos seus responsáveis. Manifestamos o nosso ideal de servir em diálogo com as instituições locais, com as autarquias, com as paróquias, com as associações, em suma, com a sociedade e o meio em que nos inserimos. Caracterizamo-nos com esta ligação à cultura local, noticiamos os acontecimentos que interessam às populações, observamos o que necessita de resolução, fazemos reportagem do que marca a vida da região. Por isso, reivindicamos o estatuto de verdadeiros agentes políticos locais, porque servimos a comunicação na polis. Como não reconhecer, antes de mais, este nosso serviço à promoção da cidadania, e, por isso, à dimensão política mais positiva?

  5. Papel específico
  6. Mas não nos fechamos. Grande parte dos nossos noticiários nacionais e internacionais são em simultâneo com canais nacionais, normalmente com a Renascença. Além disso transmitimos outros programas de interesse da comunidade. Por exemplo, a minha rádio (Vida Nova FM), transmite também o terço em simultâneo com a Renascença, porque eu conheço a comunidade que sirvo, e, se o não fizesse, nessa hora, muitos ouvintes mudariam de canal. Tendo em vista um horizonte mais alargado, de modo a contribuir para um melhor acolhimento de brasileiros e africanos lusófonos, fomos a primeira rádio local a aderir ao programa Igreja Lusófona, com todas as rádios lusófonas. Assumimos, desta maneira, a convicção do Concílio Vaticano II, ao referir que "para estabelecer uma vida política verdadeiramente humana, nada melhor do que fomentar sentimentos interiores de justiça e benevolência e serviço do bem comum" (GS 4). Importa assim situar a cooperação regional das rádios, no campo da cultura, da promoção e do desenvolvimento, como política de comunicação ao serviço das pessoas e suas instituições. É desta forma que as rádios locais aproximam e unem, com família mais alargada, e divulgam as suas aspirações e problemas. No próximo Domingo, por exemplo, a minha rádio vai promover um almoço / convívio dos seus ouvintes mais fiéis, desta feita no concelho vizinho de Pombal, o que manifesta ser capaz de congregar uma família de âmbito regional.

  7. Relação com a política mais directa

Passamos agora ao campo mais directo da relação das rádios locais com a política. Para além do que foi já referido, não apenas no capítulo das tentações do poder em conseguir uma intervenção directa ou indirecta na orientação das rádios, inquestionavelmente que são as autarquias que mais beneficiam, e procuram defender as suas rádios locais. Têm conhecimento que, se a rádio se identifica com o meio social, em que se insere, ele terá uma outra projecção e maior capacidade de intervenção.

Primeiramente, a sua acção valoriza-se junto das populações, potencialidades locais ao nível artístico, patrimonial, turístico, artesanal, e todo um trabalho geral ao serviço da cidadania. Sem vaidade, por ter que falar da minha rádio, mas, em abono da verdade, terei que afirmar que a Vida Nova FM tem estado, directa ou indirectamente ligada, a um conjunto de iniciativas, algumas das quais redundaram na criação de entidades, e postos de trabalho, valorizando riquezas da região. Concretizo ainda mais, dizendo que ela interveio para que fosse possível um trabalho, já consolidado, de promoção do Queijo Rabaçal, recuperação de artesanato da tecelagem artística regional, de moinhos de vento e das potencialidades turísticas do concelho de Ansião, para me deter apenas nas mais significativas.

No que se refere aos problemas da região, são frequentes os debates regulares que põem em destaque as dificuldades, aspirações, problemas e características da região. Deste modo, há intervenções frequentes de temas dos diversos quadrantes. Naturalmente que se destacam as eleições autárquicas como um tempo em que as rádios locais desempenham uma função de primeira ordem. Aí se esclarecem os eleitores, se debatem as ideias e se conhecem em pormenor os programas e intenções dos candidatos autárquicos. O próprio poder central levou algum tempo a reconhecer essa função primordial que as rádios locais desempenham ao serviço das regiões. Assim, foi determinado legalmente que as rádios locais deveriam passar tempos de antena dos partidos e coligações, candidatos nos respectivos municípios. E, talvez por desempenharem como ninguém uma função positiva, ultimamente foi mesmo decidido que deveriam passar também tempos de antena de todas as outras eleições.

Naturalmente que as rádios locais não precisam que se venha de fora obrigá-las legalmente a cumprir uma função política determinante. Elas próprias tomam outras iniciativas, e apresentam, entre outras, notas de abertura sobre temas sociais ou políticos, nacionais ou regionais, que constituem verdadeira intervenção política e social no País. Por exemplo, as duas últimas, que emitimos junto aos blocos noticiosos regionais, prendem-se com uma reflexão sobre as promessas eleitorais, não cumpridas, falta de coragem política para tomar decisões que deveriam pôr-se em prática, aplauso em mediadas acertadas, e, ultimamente, sobre o flagelo dos incêndios. Por me parecerem importantes, simultaneamente, faço-as publicar no mensário que dirijo, e de que apresento alguns exemplares.

Muito mais poderia partilhar, mas o tempo não permite, pelo que nos ficamos pelo que é mais expressivo, para ficarmos com uma imagem o mais aproximada possível das inúmeras potencialidades das rádios locais, e no que especificamente se refere à sua intervenção política. Posso ainda completar que a minha rádio procura evidenciar a história e potencialidades da região. Por exemplo, neste momento realiza um programa, de 2ª a 6ª feira que se denomina "Potenciar o Centro", e põe em relevo, empresas, instituições, autarquias, paróquias, cultura, carências e uma variedade de temas referentes aos vários concelhos da região entre Leiria e Coimbra.

Santiago da Guarda, 21 de Setembro de 2005

P. Armando Duarte