A maldição de ser mulher
É este o título do artigo de primeira página da revista PAIDEIA (Boletim da Associação de Professores Católicos), de Janeiro/Fevereiro 2002. Por me parecer de flagrante actualidade, permito-me transcrevê-lo na íntegra:
"Um sábio escritor francês, célebre crítico da evolução das sociedades, observou, vai já para dois séculos, que é a condição da Mulher que dá a medida do progresso. E tudo nos leva a pensar que assim é. Como não nos surpreender então ao constatar a forma como muitos milhares de mulheres vivem, dizendo mal da sua condição feminina que não estimam, não usufruem verdadeiramente e até enjeitariam se pudessem. Após os atentados de 11 de Setembro de 2001, foi-nos patenteado de novo o modo como tantos milhares de raparigas e mulheres suportam ainda hoje ser consideradas e tratadas. Impressiona logo primeiramente ver o número de esposas e mães a viver numa mesma e única família, onde o pai e o marido é o mesmo: é só um. Isto com licença da Lei, o Corão, que assim permite que cada homem possa ter conjuntamente até quatro mulheres. Evidentemente é, pelo menos, insensata esta permissão e enorme o seu alcance, que pode conduzir a comportamentos como os que há bem pouco tempo as TV,s de todo o mundo divulgaram: os estranhos vultos femininos de rosto oculto, os longos véus, bem compridos, o anonimato perfeito, e até, em certos casos, o chicote pronto a servir, se, na rua, alguma se atrevesse a uma espreitadela para que o véu permitisse ver um pouco melhor...
Contudo, entre nós, no Ocidente, além de um ou outro artigo em jornais e revistas, alguém teve notícia de movimentos organizados, de cartazes clamorosos, de convocatórias para encontros que revelassem indignação ou projectos concretos para impedir a estupenda e incrível discriminação? Nem mesmo nas Nações Unidas se tem registado uma preocupação séria e continuada com vista a obter resultados.
Sabemos, porém, que tem havido, nalguns desses países muçulmanos, mulheres corajosas que quereriam opor-se a um tão grande conformismo das suas irmãs. Todavia, salvo raras excepções, onde estão essas mulheres? Postas de lado, na maioria dos casos, crucificadas nas suas vidas familiares terrivelmente humilhadas, e para sempre alienadas e ausentes.
Não escrevemos esta nota para sublinhar a superioridade cultural e religiosa do mundo cristão. Escrevemos, sim, para que docentes numa época em que a imigração é cada vez mais avassaladora, pensemos no acolhimento a dar a essas alunas que certamente esperam de nós compreensão e estímulo: não deve a Mulher envergonhar-se de o ser! Deve antes dar altivo e alegre testemunho de sua feminilidade, uma das mais lindas e importantes razões que torna tão elevada e excelente a Criação da Humanidade".
Destaco o facto de o "sábio escritor francês", referido no início deste artigo, ser Émile Litré, que, para além de ter sido um grande lexicógrafo francês e um positivista, discípulo independente de Augusto Compte (filósofo francês), ficou conhecido, sobretudo, pelo seu monumental Dicionário da Língua Francesa, que teria levado dez anos a escrever (1863-1873). Nasceu em Paris em 1801, e aí viria a falecer em 1881.
Hermenegildo Coelho Marques