Na hora da mudança

A vida é assim: nunca pára. Se a natureza manifesta este dinamismo, também nós, conscientes do papel central na transformação do mundo e da sociedade, agentes decisivos para a vitalidade das coisas, vivemos interiormente em metanoia (mudança). Como consequência, a vida altera-se em nós e à nossa volta, na natureza, nas pessoas e nas instituições. E não tem que encarar-se como fatalidade, mas factor decisivo para que aconteça vida.

Uma vez mais, isso mesmo experimentamos com as alterações pastorais na vida da comunidade, dum modo concreto, na presidência e animação paroquial. Há mudanças de párocos nos arciprestados de Ansião e Penela, que mexe com a vida das comunidades. E se, num primeiro momento, tal situação provoca algum mal estar, pois mexe com os nossos sentimentos e afectos, e também sentimos desejo de estabilidade, nos harmonizamos e familiarizamos. Mas afinal, pensando duma forma mais serena, descobrimos que na vida é mesmo assim. O mais importante é o que em comum conseguimos construir, no amor, e isso permanece para sempre. Há deslocações, vamos para outras paragens, encontramos outros irmãos, mas "quem poderá separar-nos do amor de Cristo" (Rom. 4, 35)?

Por outro lado, conhecendo a tendência à rotina e algum adormecimento, tal situação ajuda a descobrir novos horizontes, a repensar o nosso ser e agir de cristãos, a dar atenção a outras situações, a trabalhar outros campos... E isso é sempre positivo e necessário. Alguém vai dar continuidade à missão, com outro olhar, novo dinamismo, novas ideias e projectos... Como tal, não devemos que ter medo das mudanças. Elas são úteis e necessárias. Mal... seria elas não acontecerem. Se alguma coisa de bom foi acontecendo, se houve oportunidade de alguma estabilidade e tempo para levar por diante alguns projectos, se tivemos ocasião de conhecer-nos, amar-nos e servir-nos, então o fruto fica, não parte, a relação continua...

Além disso, temos consciência das nossas limitações, dos nossos defeitos, de tanta coisa que condiciona, e uma mudança deste género é também um apelo à superação, ao progresso e à renovação. Traz sempre novidade, oferece novas oportunidades, liberta-nos dos apegos. E assim a vida continua, leva-nos a concluir que somos peregrinos, não temos aqui morada permanente, descobrimos novos horizontes, temos outros apelos à missão. O essencial é tentar corresponder, acolher as chamadas do Mestre, dispor-nos a segui-lO para onde nos manda, a obedecer como Ele, e viver na perspectiva de novos dons.

Novos párocos é uma oferta gratuita do amor do Senhor para connosco, Saibamos estar à altura de o viver. Que todos nos disponhamos a seguir o Pastor "para onde quer que vá" (Ap. 14, 4), e, com Ele, "anunciar também a Boa Nova do Reino de Deus às outras cidades, pois para isso é que fui chamado" (Lc. 4, 43). Sintamo-nos claramente chamados e enviados, partindo ou ficando, com a dinâmica dos discípulos que "iam a caminho... e Jesus seguia adiante deles" ( Mc. 10, 32).

P. Armando Duarte