Crise de Sociedade - Crise de
Civilização
Nota Pastoral
da CEP
Crise de Sociedade - Crise de Civilização
Introdução
1- Tem-se verificado, na sociedade portuguesa, um conjunto de factos e de fenómenos que
consideramos sintomas preocupantes de uma alteração cultural que anuncia uma crise de
civilização. Sem excluir as tomadas de posição pontuais, ao ritmo dos acontecimentos,
para esclarecer a consciência dos fiéis, queremos, com esta Nota Pastoral, alertar para
um quadro civilizacional de valores culturais que possa constituir o pano de fundo a
proporcionar aos católicos e a toda a sociedade um juízo dos factos e das situações,
na perspectiva da doutrina da Igreja sobre a pessoa humana e sobre a sociedade.
Defendemos uma cultura da liberdade e da responsabilidade de consciência, de modo a que
os cristãos não precisem, perante cada circunstância concreta, da palavra da Igreja,
aplicada a cada facto ou acontecimento. O magistério da Igreja defende uma causa nobre
demais - a causa da dignidade da pessoa humana - para aparecer perante a opinião pública
como um regatear contínuo, denunciando decisões, defendendo perspectivas e valores
esquecidos. É importante que cada cristão, para poder reagir responsavelmente, na
liberdade da sua consciência, nas diversas circunstâncias, possa estar ciente do quadro
cultural de valores que inspira as tomadas de posição concretas da Igreja, na fidelidade
à doutrina evangélica e aos princípios inspiradores da nossa cultura.
O Papa João Paulo II, em recente discurso dirigido aos participantes na Assembleia Geral
da Pontifícia Academia para a Vida, sublinha esta perspectiva: A melhor maneira de
superar e vencer a perigosa cultura da morte, consiste em dar fundamentos sólidos e
conteúdos luminosos a uma cultura da vida que se contraponha, com vigor, a essa cultura
da morte. Não é suficiente, mesmo se necessário e um dever, limitar-se a expor e
denunciar os efeitos mortíferos da cultura da morte. É preciso, sobretudo, regenerar
continuamente o tecido interior da cultura contemporânea, entendida como mentalidade
vivida, como conjunto de convicções e comportamentos, como estruturas sociais que a
sustentam (Osservatore Romano, 04-03-2001).
Sintomas de mutação cultural
2- Na nossa sociedade sente-se cada vez mais que as
regras inspiradoras dos comportamentos, as próprias leis e o sentido global da vida
individual e comunitária, deixaram de se inspirar em padrões éticos de valores, num
quadro cultural que defina um projecto e um ideal, na linha da nossa tradição cultural,
e decorrem ao sabor de critérios imediatistas e pragmáticos, onde não se escondem
intenções de alguns grupos de provocar rupturas fracturantes, em relação à
tradicional cultura portuguesa, ou mesmo em relação à influência da doutrina da Igreja
na sociedade.
Inculca-se um exercício da liberdade sem limites, não percebendo que a dignidade desta
reside na responsabilidade; o fenómeno da corrupção tolda o valor da liberdade
económica; a crescente marginalização social, agravada com o eclodir de manifestações
de violência, gera insegurança e prejudica a harmonia de uma sociedade que se quereria
cada vez mais justa; surgem sintomas de falta de confiança no sistema judicial, base
indispensável de um Estado de direito, onde cada pessoa sinta garantida a defesa dos seus
direitos e da sua dignidade; a toxicodependência e a delinquência juvenil alertam para
uma crise da juventude, cuja solução é dificultada pela falta de apoio e protecção à
família e pela ausência de uma ousada e inovadora concepção da política de
educação; a globalização, acentuada com a mediatização da vida, fez surgir novos
poderes, fragilizando aqueles em que, tradicionalmente, assenta a harmonia da sociedade; o
poder político está fragmentado e enfraquecido, há sintomas preocupantes de perda de
confiança nas instituições, há cada vez mais margem para a ilegalidade e para a
anomia.
Nós os Bispos, e toda a Igreja, assumimos as nossas responsabilidades neste processo,
desejando contribuir para a sua equação, no quadro da nossa missão específica e na
esfera que nos é própria. A Igreja faz parte da sociedade civil, como comunidade
organizada. Com a doutrina que propõe e que recebeu do Evangelho e da tradição, com a
sua experiência de serviço, quer colaborar com o Estado, com as outras organizações da
sociedade civil, em ordem à construção de um Portugal digno da sua tradição e da sua
história e à altura das suas responsabilidades, presentes e futuras, na Europa e no
mundo. É urgente repensar Portugal, aprofundando a convivência democrática, acentuando,
sem hesitações, aquelas linhas de força culturais que garantam a unidade progressiva da
nossa civilização, marcada pela abertura à universalidade, pela convivência na
diversidade, pela afirmação, sem receios, da tradição humanista de inspiração
cristã.
Uma cultura marcada pelo cristianismo
3- Com a implantação do cristianismo na Península Ibérica, ainda no tempo do Império
Romano, introduziu-se na evolução cultural dos povos que aqui habitavam e dos que para
aqui vieram, fruto das grandes migrações, um factor decisivo, embora não único, pois a
perspectiva cultural de inspiração cristã sempre conviveu com outras matrizes
culturais, dos povos que chegavam, do judaísmo, do islamismo. Esse factor foi a
inspiração cristã, decisiva em ordem à unidade e harmonia de uma cultura.
Portugal nasceu como país independente num enquadramento eclesial claro, dimensão que
nunca deixou de estar presente, mesmo que de forma dialéctica, no evoluir da nossa já
longa história. Vários momentos houve em que forças de influência, ideológica ou
política, normalmente importadas, tentaram diminuir, ou mesmo anular, esta matriz cristã
da nossa cultura. Mesmo num quadro de pluralismo dialogante, próprio de uma sociedade
democrática, e apesar das claras manifestações de apreço pela Igreja, pelos seus
valores e testemunho de serviço, vindos de governantes e da sociedade civil, notamos, por
vezes, manifestações remanescentes desses desígnios ocultos de contraditar a
influência da Igreja. As tais opções fracturantes, determinadas por motivos
ideológicos, mais que pela sadia procura de soluções justas e adequadas, dificilmente
escondem a intenção de impor linhas culturais que contradigam a posição da Igreja
sobre as matérias em discussão.
Queremos afirmar claramente, a todos e de modo particular aos fiéis católicos, que
estamos conscientes disso e que essas manifestações não nos impedem de pautar a nossa
intervenção na sociedade pela doutrina em que acreditamos, e de contribuirmos, pelo
diálogo e pela tolerância, para a harmonia de uma sociedade plural. Aos católicos
reafirmamos que, quando as leis se afastam da doutrina da Igreja, em matéria moral e de
respeito pela dignidade da pessoa humana, elas não obrigam em consciência. O que é
legal não significa, necessariamente, o bem moral. Esse é, aliás, um sintoma
preocupante das sociedades ocidentais, em que a ordem legal se afasta, tantas vezes, da
ordem ética, o que leva muitos a considerar como moralmente legítimo o que é
simplesmente legal.
Uma cultura da dignidade da pessoa humana
4- Este é um dos absolutos da Doutrina Social da
Igreja: uma sociedade justa e harmónica não se constrói sobre o desrespeito pela
dignidade da pessoa humana, permitido pelas leis ou praticado na clandestinidade dos
processos sociais. E esta dignidade não se afirma, apenas, em relação aos indivíduos,
mas também na valorização das instituições que enquadram e promovem essa dignidade,
como é o caso da família. Todos os atropelos à família são agressões a essa
dignidade sagrada da pessoa.
Soluções pragmáticas e imediatistas, procuradas para situações sociais graves, como
é o caso da toxicodependência, podem estar marcadas por esse desrespeito. Todas as
normas que regulem o comportamento da sociedade em relação às pessoas, de modo
particular aos doentes, aos idosos, aos detidos, às minorias culturais e étnicas, aos
delinquentes, aos marginais, têm de salvaguardar a sua dignidade como pessoas. Nunca a
sociedade e, muito menos, o Estado a podem esquecer ou diminuir para resolver problemas concretos.
Uma cultura da liberdade na
responsabilidade
5- Se a sociedade deve respeitar a dignidade de cada
pessoa, o exercício da liberdade deve ser a expressão desse respeito por cada pessoa em
relação a si mesma e em relação ao seu semelhante. A dignidade da liberdade afirma-se
na generosidade e na responsabilidade.
Há, na nossa sociedade, manifestações da defesa do exercício da liberdade, sem
exigência da respectiva responsabilidade. Isso verifica-se, sobretudo, no que à vida
privada diz respeito. A chamada liberdade sexual é disso um exemplo paradigmático. A
liberdade sexual é, hoje, um novo tabu, onde ninguém ousa tocar, mesmo numa perspectiva
envolvente e global de educação para a responsabilidade. E perante os problemas sociais,
alguns graves, que daí decorrem, como o das doenças sexualmente transmissíveis, o
crescente aumento de adolescentes que engravidam, o aborto, as soluções protagonizadas
pela legislação procuram precaver ou remediar os efeitos, sem tocar na questão de
fundo, que seria a promoção de uma sexualidade generosa e responsável. Universaliza-se
o preservativo, facilita-se o aceso à chamada pílula do dia seguinte, criam-se salas de
injecção assistida para os toxicodependentes, trocam-se gratuitamente as seringas, e,
nas campanhas de promoção ou nos proémios justificativos das leis nunca se diz uma
palavra que vá na linha de sugerir uma responsabilidade no exercício da liberdade.
Não nos podemos esquecer que admitir a irresponsabilidade num aspecto da vida, significa
comprometer toda a educação para a responsabilidade. Como queremos, então, promover a
responsabilidade pessoal e colectiva, na economia, nas obrigações fiscais, na fidelidade
aos deveres profissionais, na circulação rodoviária e no respeito pelos bens que são
da comunidade? Não somos só nós a dizê-lo, pois alguns artigos de opinião já o
afirmaram: alguma legislação recente é geradora de comportamentos irresponsáveis.
Dirigir um país não pode ser só administrar as crises, tem de assentar num projecto de
valores a promover e a defender. Deveria ser esse projecto cultural a definir as propostas
políticas de sociedade a apresentar aos portugueses para a sua escolha democrática.
Uma cultura da vida
6- O mistério da vida, que todos recebemos de Deus,
constitui a principal motivação para a liberdade e a responsabilidade. A vida é o
primeiro valor a defender e a promover, através de uma educação que ajude a concebê-la
como projecto livre e criativo, a ser vivido com os outros e para os outros, se preciso
com generosidade heróica nos momentos mais difíceis.
Para uma existência conduzida na perspectiva cristã, é chocante a facilidade com que se
aceita pôr a vida radicalmente em questão, para resolver problemas circunstanciais de
indivíduos e de grupos. Uma mulher tem uma gravidez indesejada, que poderia ter evitado
com a prática de uma sexualidade responsável? Facilita-se o aborto, se possível logo
nas primeiras horas após a concepção. O sofrimento torna-se penoso, devido a doenças
consideradas incuráveis? Ajuda-se a morrer com dignidade, colaborando no suicídio. Não
é fácil encaminhar todos os toxicodependentes para projectos de recuperação a promover
e a acarinhar? Instalam-se salas de injecção assistida. Etc.
Está a substituir-se uma cultura da vida por uma cultura da morte. E quem promover uma
cultura da morte acabará por comprometer uma Nação. A coragem na promoção e na defesa
da vida define a grandeza de um projecto nacional.
Portugal está prestes a alterar a sua Constituição para permitir a inclusão no Código
Penal da pena de prisão perpétua. Sabemos que isso é uma consequência da nossa
inserção na comunidade internacional. Desejamos vivamente que esse facto não nos afaste
de uma compreensão das penas de prisão como período, não apenas de castigo, mas de
regeneração da pessoa do detido, cuja dignidade e direito à vida continuam
invioláveis.
Uma cultura de verdade e de coerência
7- O cristianismo valoriza a importância da verdade
como alicerce da cultura. A verdade, que os crentes recebem através da Palavra de Deus e
que cada homem procura com a inquietação da inteligência, define a fisionomia
espiritual do homem, fundamenta os valores que prossegue, inspira os caminhos a percorrer.
Uma cultura assente na verdade e na coerência não se exprime apenas nos discursos, mas
na generosidade das acções e na rectidão dos processos. A recentemente aprovada Lei
sobre a liberalização da chamada pílula do dia seguinte é um caso chocante. Chama-se
anti-concepção de emergência quando todos sabem que é abortiva e que, pelo menos,
deveria ficar sob a alçada da lei, a qual, apesar de reprovável, deveria ser aplicada
correctamente. Porque não se pode negar o seu efeito de interrupção do normal percurso
de um óvulo fecundado, porque se sabe que as mulheres a procuram, em período fértil,
depois de uma relação sexual potencialmente fecundante, distingue-se entre fecundação
e nidação, como se não fosse claro que no zigoto se iniciou a aventura de um novo ser
humano, que merece o respeito de todos e precisa de ser defendido.
Quere-se regulamentar os direitos cívicos de uniões de facto, mesmo entre pessoas do
mesmo sexo, e consideram-se famílias alternativas, atingindo a dignidade da família, que
no seu fundamento antropológico e afectivo, assente numa responsabilidade e compromisso
duradouros, selados pelo contrato matrimonial, é a base sólida da estabilidade da
sociedade. As nossas famílias mereciam mais apreço e reconhecimento da sua dignidade.
Uma sociedade justa, harmónica e pacífica só pode edificar-se sobre a verdade. Só esta
nos conduz à liberdade: Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente
meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á (João, 8,
31-32).
Uma cultura da solidariedade
8- Livre e responsável, a pessoa humana é chamada a
ser solidária. A solidariedade é a expressão da dimensão comunitária da sociedade, em
que o bem comum prevalece sobre o interesse particular, de indivíduos, grupos ou
minorias, em que a partilha sublinha a fraternidade e o sentido de serviço inspira a
convivência colectiva.
Uma das consequências do pragmatismo imediatista na busca das soluções é o acentuar de
atitudes de individualismo, por vezes egoísta, de pessoas e de grupos, toldando a
perspectiva do bem comum da sociedade e dando, por vezes, dimensão nacional a interesses
de grupos, que pouco ou nada dizem ao conjunto do Povo português.
Precisamos de acentuar uma cultura da solidariedade, em que os direitos dos indivíduos
cedam perante as exigências do bem comunitário, e a Nação apareça como comunidade de
ideal, na análise dos problemas e na busca das soluções. Para os cristãos, o dever do
amor fraterno é a base da solidariedade.
Uma cultura da esperança
9- Uma cultura inspirada nos valores evangélicos é,
necessariamente, repassada de esperança. Esta análise pretende ser não apenas uma
denúncia, mas um incentivo. Há na nossa sociedade valores positivos, de competência, de
generosidade, de abertura aos outros e mesmo de fé, suficientemente fortes para
inspirarem um projecto; há cidadãos competentes, generosos, rectos, que dedicam as suas
vidas ao bem comum. É preciso que nos convençamos de que o futuro de Portugal depende de
todos nós e não apenas dos Governos. Portugal será o que os portugueses quiserem, e as
nossas crianças terão amanhã a sociedade que nós, hoje, merecermos para elas.
Estamos no início de um novo século e de um novo milénio, um tempo novo portador de
esperança. Apelamos, de modo particular, aos jovens, aos educadores, aos agentes
culturais e fazedores de opinião, a que dêem conteúdo a esta esperança, acreditando
que um mundo novo é possível, tendo a coragem, se necessário, de ser diferente.
Levantemos âncora e façamo-nos ao largo, pois espera-nos o mar imenso do futuro.
Fátima, 26 de Abril de 2001