Nesta manhã ouve-se

um grito de protesto…

 

   Depois de toda uma semana ‘atribulada’ há um judeu que morre, por volta do ano 30 da nossa era. A causa de morte deste judeu de Nazaré, com cerca de 36 anos, não foi a idade nem a doença, mas a condenação à morte por crucificação.

   Se quisermos saber quais as razões da sua condenação temos que saber que elas se encontram nas palavras que este judeu proferiu sobre o Templo, sobre a Lei e sobre o Sábado. Questionou esta espécie de ‘trindade institucional judaica’; questionou o poder religioso e político do seu tempo; questionou as atitudes e os gestos dos homens e das mulheres seus contemporâneos. 

   Se tudo tivesse terminado na cruz, no monte do calvário, nas três horas de sexta-feira… Este judeu teria sido apenas mais um… que não se conseguiu adaptar à sociedade e às injustiças que todos os poderes (religioso, político, social) acabam sempre por protagonizar.

   Mas a história continua… e ganha novo horizonte na manhã de domingo. É nesta manhã que se percebe outro sentido para além das evidências… Aquele que estava morto agora vive. Contra todas as expectativas, contra todas as lógicas humanas, contra todas as provas cientificas…

   A História, tendo dificuldade em conviver com estes acontecimentos, tem vindo a reclamar insistentemente com «Provas de Ressurreição». Não há muitas, por ventura: não pode ser apenas o túmulo vazio, não pode ser apenas os relatos evangélicos… mas seguramente que hão-de ser os homens e as mulheres que, desde a primeira hora, deram a vida por Cristo. Só pode dar a vida por Cristo quem faz a experiência da Ressurreição.

   A manhã de Páscoa fala-nos desta força interior que é a Ressurreição de Jesus Cristo. Uma força interior e uma alegria de vida que há-de transformar tudo e todos. Uma experiência de fé (apenas e só pela fé podemos viver esta presença real de Cristo em nós) que nos há-de tornar livres ao ponto de podermos, tal como Jesus junto da sociedade judaica, questionar atitudes, gestos e opções dos poderes (religioso, político e social).

   A manhã de Páscoa é um ‘grito’ de protesto contra uma igreja virada para a morte e o culto dos mortos, contra os cristãos descomprometidos com um mundo mais honesto e justo, contra os padres acomodados com as instituições religiosas e algumas das suas normas, contra uma igreja de massas feita de tradições e por evangelizar, contra os cristãos que separam a fé da vida quotidiana, contra a falta de cultura religiosa das nossas comunidades, contra a falta de razões de fé profundas e a falta de experiências profundas de Deus…

   É preciso celebrar esta ‘passagem’ (significado etimológico da palavra Páscoa)… Caso contrário, continuaremos a perder tempo e vidas a coser ‘remendos novos’ em ‘panos velhos’ cada vez mais ‘rasgados’…

   Nenhum baptizado está dispensado desta tarefa de «re-construção» de «um mundo melhor» a partir do essencial. Demos voz a este grito de protesto com as nossas atitudes e os nossos gestos… sinais históricos de ressurreição.

                                                                                                                   P.e Nuno Santos