Contradições do Governo

No apontamento do último nº do nosso jornal fizemos uma breve reflexão sobre o sentido do não ao Tratado Constitucional Europeu. Pareceu oportuno estender também essa reflexão sobre o que se passa em Portugal, no âmbito das decisões políticas governamentais. Os cristãos, no exercício da cidadania amadurecida, devem interessar-se por tudo o que diz respeito ao bem comum e dar um contributo positivo para construção dum mundo melhor. Ao que parece, segundo sondagens recentes, os portugueses têm fraca sensibilidade para a sua intervenção na construção da Europa. O que não deixa de ser interpelativo. Participar, há-de ser um imperativo de quem tem sentido de pertença à polis, e numa dimensão mais largada de construção da casa comum europeia e de transformação do mundo. Para que não se demita e alheie a estes assuntos, apresentamos um modesto contributo para formação da opinião pública.

Avisados como estamos, não cairemos na acusação feita aos franceses de confundir o não ao Tratado com a reacção aos problemas internos do País. Importa separar bem as águas, e por isso nos detemos por agora no que se passa entre nós. E se formos, a seu tempo, convidados a pronunciar-nos sobre a Constituição da Europa, procuraremos ter uma visão mais alargada e solidária.

Atentos ao panorama do País, é inquestionável um clima tenso em variadíssimos sectores da sociedade, face às medidas governamentais tomadas e anunciadas. Não queremos pronunciar-nos em particular sobre a justeza ou não das medidas, e a correspondente resposta por parte dos visados directamente por elas, mas duma forma geral parece que elas põem algum dedo na ferida e questionam direitos adquiridos e, comparativamente, privilégios sobre outros e, dum modo especial, sobre os mais desfavorecidos. À partida merece aplauso a firmeza do Governo, tendo em conta os desequilíbrios e injustiças que a manutenção do status quo faziam prever.

Uma coisa nos parece anormal: que no orçamento rectificativo mais de 50 % das despesas (PIB – despesa pública) se prendam directamente com o Estado, o que não acontecia há mais de 50 anos. Já esta nota estava redigida, quando tivemos o anúncio do Governo de que iria rectificar o orçamento rectificativo. Paralelamente baixa a credibilidade internacional face a Portugal. Não deixa de ser sintomático! Por outro lado, os políticos perdem completamente a sua credibilidade quando anunciam uma coisa, na campanha eleitoral, e depois fazem outra. Será que alguém já se esqueceu da guerra que o partido do Governo fez ao anterior executivo por ter aumentado os impostos, ao contrário do que anteriormente tinha prometido? E agora, o que aconteceu? No mínimo, parece aberrante e imoral. Mas, inadmissível é verificar que, por razões eleitoralistas, desta vez de acordo com promessas anteriores, contra o que a generalidade dos portugueses defende, o Governo tenha mantido a decisão de não cobrar portagens nas scud’s. Francamente, não entendemos tantas contradições.

                                                                                                                                                                                                                     A. D.