O Domingo e a Celebração Dominical
Instruções Pastorais dos Bispos das Dioceses do Centro



APRESENTAÇÃO


1. Os Bispos das Dioceses do centro do País reu-nimo-nos frequentemente, com o propósito de nos ajudarmos no exercício da nossa missão pastoral. Além de nos ser agradável o convívio 7fraterno, partilhamos iniciativas e reflectimos sobre as mudanças que se veri-ficam nas nossas dioceses, bastante semelhantes entre si.
Uma destas mudanças observa-se no modo como se vive o Domingo. Efectivamente, há valores que se estão a perder, por exemplo o repousante convívio com a família; e há novas formas de participação que vamos ganhando, como a celebração da fé garantida fielmente por leigos quando o Presbítero não pode estar presente.
Estas instruções pastorais são um convite que dirigimos a todos os padres e fiéis das nossas dio-ceses, no sentido de observarem o modo como se vive o Domingo na sua terra e na sua comunidade; são também um pedido a que se empenhem em ajudar os irmãos na fé a guardarem e valorizarem este nosso tesouro que é o Domingo cristão.

I

O DOMINGO, DIA DO SENHOR,
DIA DOS CRISTÃOS



Descobrir o sentido do Domingo
para o viver como o Dia do Senhor

2. O Santo Padre escreveu em 1998 uma carta apostólica sobre o Dia do Senhor, com a preocupação e o cuidado de nos ajudar a descobrir e a viver o Domingo.
Lembra-nos ele que, para nós, cristãos, o Domingo não é um dia qualquer, mas um dia que tem uma especial ligação com o mistério da Páscoa de Jesus e está, por isso mesmo, em estreita ligação com as verdades centrais da nossa fé e o mistério da nossa redenção.
Perder o sentido do Domingo é ficar cada vez mais longe de Deus e da vida cristã.
Tinham muita razão os mártires de África (ano 304), quando, logo no início da Igreja, diziam aos que os ameaçavam de morte e os torturavam: “Nós não podemos passar sem o Domingo”. Para eles era fundamental reunirem-se a fim de celebrar a Eucaristia, ouvir a Palavra de Deus, receber o Corpo do Senhor e fortalecer os laços fraternos. Daqui lhes vinha a força para a sua vida, o seu compromisso apostólico, o testemunho de amor que queriam dar a todos, como sinal da sua fé em Jesus Cristo vivo. Daí lhes veio a força para o martírio.
Descobrir o sentido do Domingo é, para um crente, perceber o que ele significa como “o Dia que o Senhor fez”, o valor da sua celebração e o seu signi-ficado para a nossa existência humana e cristã.
Hoje, esta descoberta tornou-se muito impor-tante, porque o Domingo foi absorvido, para muita gente, pelo “fim de semana”, pelas mais diversas expressões de descanso, de desporto, de lazer, por actividades de vária ordem, que não deixam tempo para o espírito e para Deus. Com a preocupação de ver muita coisa, há gente que deixa de ver o céu; com a pressa de comprar tanta bagatela e despachar mil compromissos, há gente que deixa de fazer o mais importante. A este propósito, lembremos uma palavra de São Paulo, que é iluminadora para todos os que a tomam a sério: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus!”( 1 Cor 3, 22-23).


Domingo, Dia do Senhor,
Criador de todas as coisas


3. A redenção que o Domingo celebra não é separada da criação, obra das maravilhas de Deus a favor de todos os homens. Só pelo mistério de Jesus Cristo, nós podemos dar à criação o seu sentido original.
Contemplar e admirar a beleza e a grandeza das coisas criadas é uma dimensão do repouso e do descanso dominical.
O repouso é um convite ao reconhecimento da maravilha e do valor de tudo quanto Deus fez para nós.
É preciso tomar consciência de que repousar não é apenas interromper o trabalho, mas é também reser-var um tempo para celebrar na vida as maravilhas de Deus.
Para descansar e recuperar as forças que o trabalho da semana desgastou, o Domingo convida-nos a contactar com a natureza, com os dons naturais que nos vêm de Deus.
Através dos dons de Deus, torna-se mais fácil ir até ao Deus de todos os dons.

Domingo, Dia de Cristo ressuscitado
e do dom do Espírito


4. O Domingo, primeiro dia da semana, é, por excelência, o dia da Páscoa e do Pentecostes. O dia em que o Senhor ressuscitou e em que o Espírito Santo, Senhor que dá a vida, nos foi enviado. Por isso mesmo, ele será sempre para os cristãos o dia da fé alimentada e professada.
O enfraquecimento da fé faz perder o sentido espiritual e cristão do dia do Senhor. Do mesmo modo, o abandono do Domingo conduz ao amortecimento da força operante da fé e da dimensão espiritual da vida.
Sem Domingo, os cristãos tornam-se facilmente pagãos.
Viver o Domingo cristão ou deixar que ele perca o sentido original, não é indiferente para um crente, que é chamado a ser no mundo uma testemunha pascal, ou seja, a mostrar pela sua conduta que Cristo está vivo; que é chamado a testemunhar, também, a força do Espírito que anima a sua existência diária.


Domingo, Dia da Igreja reunida
em assembleia eucarística


5. A assembleia eucarística é o povo de Deus, crente e orante, convocado para celebrar a presença de Cristo ressuscitado no seu seio. Por isso mesmo, ele responde, de diversos modos, às saudações do presidente: “Bendito seja Deus, que nos reuniu no amor de Cristo”, “Ele está no meio de nós”, “O nosso cora-ção está em Deus”.
Cada assembleia eucarística perpetua a palavra dos Act. 2, 42, uma vez que os cristãos se reúnem, dominicalmente e com a mesma assiduidade, para o ensino dos Apóstolos, a união fraterna, a fracção do pão e a oração.
A assembleia eucarística é essencial à Igreja: torna visível no mundo o seu mistério como sinal de unidade e sacramento da presença de Cristo vivo; é o “cume e a fonte” da vida cristã e de todo o ser da Igreja. (SC,10).


O Domingo e a Eucaristia
estão no centro de toda a vida da Igreja

6. Participar da Eucaristia, na mesa da Palavra e do Pão, assumir os irmãos como Corpo de Cristo, tudo isto o devem considerar os cristãos como normal na sua vida de crentes.
O preceito de participar na Missa Dominical deve ser considerado como uma ajuda à necessidade interior de fazer desta participação uma grande expres-são de fé, uma festa e, ao mesmo tempo, uma necessidade interior irreprimível.
Cumprindo de boa mente com alegria esta obrigação, o crente, além de manifestar e alimentar a sua fé, ganha entusiasmo para difundir as riquezas dessa fé, parte da “Missa para a missão”, desejoso de alargar a comunhão a todos os que não puderam ou não quiseram vir.


O Domingo, Dia do homem:
dia de alegria, repouso e solidariedade


7. Vivido na sua verdadeira dimensão, o Domingo não pode deixar de ser um dia de grande alegria. A Igreja, ao falar do “Dia que o Senhor fez”, convida a que nele nos alegremos e rejubilemos. O nosso verdadeiro regozijo vem de sabermos que Cristo ressuscitou e continua vivo connosco; vem de nos sentirmos amados de Deus, que nos deu a redenção por seu Filho Jesus, fonte de alegria e de paz. Uma alegria que se deve cultivar e comunicar. Que em cada Domingo cresce e se exprime de mil maneiras, como fruto do Espírito, na vida de um Filho de Deus.
O repouso do dia santificado, pela interrupção do trabalho normal, permite a contemplação, a vida de família, a formação pessoal, as expressões de soli-dariedade, traduzidas em obras de misericórdia, de caridade e de apostolado. É a Eucaristia que esti-mula esta partilha de amor, especialmente com os mais sós e os mais pobres.
É preciso que o Domingo e a Eucaristia se transformem para os cristãos em tempo e lugar de frater-nidade e de solidariedade concreta, em fonte de volun-tariado eclesial e social.


Domingo, Dia dos dias,
revelador do sentido do tempo


8. A vivência dominical leva-nos a dar sentido a todos os outros dias, a dar sentido ao tempo, fazendo dele momento de louvor, de redenção, de serviço e de amor, tempo com dimensão de eternidade.
O Domingo é o centro do tempo, porque com-pendia em si os anos da existência de Cristo. É o acontecimento revelador do valor do homem, do seu chamamento à plenitude e da sua dimensão eterna.


II

A MISSA DOMINICAL, CELEBRAÇÃO
DO SENHOR RESSUSCITADO



O valor da Eucaristia dominical

9. Não há Domingo cristão sem celebração comu-nitária. E desde o tempo dos Apóstolos que os cristãos consideram que a melhor celebração comunitária do domingo tem no centro a Eucaristia.
Confrontando várias passagens do Novo Testamento (Act. 20, 7; 1 Cor 16, 2; Ap 1, 10), podemos já concluir que os cristãos se congregavam na noite de Sábado para Domingo.
Uma carta do Governador da Bitínia, enviada para Roma no ano 112, descreve os cristãos como um grupo que se reúne na madrugada de um dia fixo (o primeiro da semana), para cantarem hinos “a um tal Cresto”.
Vários escritos das primeiras gerações depois dos Apóstolos (Cartas de Santo Inácio; Didakê; Apologia de São Justino) informam-nos sobre essas reuniões. O ensino da Palavra e hinos de louvor, com preces, preenchiam um longo tempo. No centro da reunião, a Ceia do Senhor ou Eucaristia. Por vezes, a terminar, o “ágape”, ou refeição festiva partilhada familiar-mente.
Era assim, num ambiente de alegria e festa, que os cristãos se reencontravam com o Senhor Ressuscitado.

10. Efectivamente, os cristãos sabiam que Jesus lhes dissera: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles” (Mt 18, 20).
Também o Senhor Jesus lhes dera ordens sobre o que haviam de fazer nessas reuniões: “Tomai e comei ...Tomai e bebei ...Fazei isto em memória de Mim” (Lc 22, 14-20).
E não tinha Jesus, Ele próprio, cumprido esta indicação quando, na tarde do primeiro Domingo, Se sentou à mesa com os discípulos de Emaús?
Por isso, os cristãos, desde os primeiros tempos, sempre entenderam que o gesto mais adequado para assinalar o dia da Ressurreição, o Domingo, era tornar presente a Ceia de Acção de Graças de Jesus, aquilo mesmo que Ele mandara fazer para celebrar a sua vitória sobre a morte e a sua passagem para o Pai.
São Paulo resumiu admiravelmente estas certezas, que já eram uma prática, na primeira carta que escreveu aos fiéis de Corinto: “Todas as vezes que comer-des deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” ( 1Cor 11, 26).
Ser cristão é ser um ramo da videira que é Jesus Ressuscitado. Para isso fomos baptizados: para recebermos a “seiva”, a vida que vem da Morte e Res-surreição do Senhor. A Eucaristia é a principal fonte onde, há vinte séculos, bebemos a graça que corre da Cruz; e a graça que recebemos torna-nos ressuscitados com Cristo; faz de nós continuamente “uma nova criatura”.
Celebrar a Eucaristia, celebrar a Missa é, pois, tornar presente e actual a Ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição.


O alimento da Palavra de Deus

11. Juntamente com a “ mesa da Eucaristia”, a Igreja prepara a “mesa da Palavra”.
Em cada Domingo, e sobretudo nas festas maio-res do ano, ouvimos a leitura das passagens principais da Bíblia, escolhidas de modo a compreendermos melhor o mistério da festa que celebramos ou a reflectirmos sobre um tema importante da nossa fé. Para muitos cristãos, esta é a única ocasião em que escutam a Palavra da Sagrada Escritura.
A prática e as normas da Igreja mandam que estas passagens sejam comentadas de preferência pelo sacerdote que preside. E deste modo se mantém viva a escola da fé que tem alimentado gerações de crentes ao longo de séculos.
Devemos notar também que, ao ouvirmos passagens da Sagrada Escritura que nesse dia são lidas nas igrejas de todo o mundo, estamos a fortalecer os laços que nos unem na mesma Igreja Católica que os Apóstolos espalharam pela terra.
Podemos ler a Bíblia em nossa casa nos dias e horas que quisermos; mas esta leitura dominical tem um carácter diferente: “A proclamação litúrgica da Palavra de Deus, sobretudo no contexto da assembleia eucarística, não é tanto um momento de meditação e de cate-quese, como sobretudo o diálogo de Deus com o seu povo, no qual se proclamam as maravilhas da salvação e se propõem continuamente as experiências da Aliança” (DD, 41).


O encontro com os irmãos


12. A Missa pode celebrar-se em qualquer dia da semana: há grupos que a desejam, pessoas que a procuram para assinalar uma data ...Mas, ao Domingo, “a mesa da Palavra” e a “ mesa do Pão da vida” estão preparadas para toda a comunidade.
Sentimos então que se repete o que aconteceu na tarde do primeiro Domingo: o encontro de Jesus ressuscitado com todos os seus discípulos. Por isso, a celebração é sempre festiva.
Nos tempos que correm, em que o individua-lismo nos afecta e invade também a nossa vida cristã, é conveniente lembrar a todos a riqueza deste gesto que é a assembleia da Missa dominical: misturados com os irmãos de qualquer raça, cultura, situação económica ou idade, todos ouvimos a mesma Palavra, somos convidados para a mesma Ceia do Senhor e a todos cumprimentamos com a saudação cristã da paz.

A primeira fonte de vida cristã

13. A história da Igreja diz-nos que a participação na Missa dominical tem sido, ao longo de vinte séculos, o melhor apoio para a fé dos católicos.
Daqui vem a nossa preocupação de Pastores em cuidar de manter viva esta fonte primeira da vida cristã e de a lembrar a todos os filhos da Igreja; de verdade, não podemos esquecer o valor da Missa dominical e a necessidade de nela participarmos.
O seu êxito resulta também de factores humanos que sempre acompanharam a celebração do Domingo, como o encontro com os amigos, a festa, o canto, a grande assembleia...
Mas o valor da Missa Dominical é, sobretudo, de graça e bênção. Acreditamos que o Senhor Jesus está realmente presente na assembleia e abre nela as fontes da Ressurreição: procedem bem os que nela cele-bram, ao menos em alguns dias, o Baptismo e o Matrimónio. Integrada na Missa é também a celebração dos outros Sacramentos e de muitos Sacramentais.
Estes e outros gestos litúrgicos ajudam-nos a acreditar que as fontes da graça correm abundantes na Missa do Dia do Senhor. É nelas que nos alimentamos para vivermos como filhos de Deus em toda a semana.

O preceito da Missa dominical
14. Durante os primeiros séculos do cristianismo, não foi necessário lembrar aos cristãos o dever de participar na Eucaristia do Domingo. Eles mesmos a procuravam, por vezes com risco da vida, quando a perseguição era intensa. Estes nossos irmãos sentiam que a sua fé se fortalecia no encontro com o Senhor e se encorajava com o exemplo dos outros.
Veio a paz para a Igreja; aumentou rapidamente o número dos crentes, mas cresceu também a falta de convicção e mesmo o desleixo.
Foi então que a Igreja estabeleceu como dever grave a obrigação de participar na Eucaristia dominical. Desprezar este sinal de pertença e esta fonte de graça era e é menosprezar a mesa que nos alimenta; é esquecer o próprio Deus, que para ela nos convida.
Por isso, o Catecismo da Igreja Católica afirma: “A Eucaristia dominical fundamenta e sanciona toda a prática cristã. É por isso que os fiéis têm obrigação de participar na Eucaristia nos dias de preceito, a menos que estejam justificados, por motivo sério” (n.° 2181).


III

CELEBRAR A FÉ NA AUSÊNCIA
DO PRESBÍTERO


A celebração dominical
na ausência do Presbítero


15. Nos tempos que correm, repetem-se as situa-ções em que não é possível a Eucaristia dominical, nem sequer a sua celebração antecipada. Isto acon-tece sobretudo pela falta de padres, mas também porque se multiplicaram os lugares de culto, por vezes exageradamente, e todos desejam ter Missa no local onde habitam.
Na falta da celebração da Missa, devemos então garantir à comunidade cristã a realização de um encontro dominical, que seja expressão da fé e alimento para ela. Isto nos locais onde tal se justificar.
Acompanhar a Missa pela televisão é um cos-tume excelente, pelo qual se unem a Deus tantos doentes e idosos, que não podem deslocar-se ao templo. E até para outros, sãos no corpo mas débeis na fé, o acompanhar a Missa pela televisão poderá ser bom caminho para um recomeço da prática cristã. Mas a participação televisiva não tem o calor da fé que damos e recebemos com a nossa presença física; falta-lhe a vivência comunitária e a riqueza da comunhão sacramental no Corpo do Senhor, sempre que para ela estamos preparados.
Esperamos, por isso, que os cristãos a quem não seja possível participar na Missa, sintam interiormente a obrigação de tomar parte na celebração dominical da Palavra de Deus.
Estas reuniões de oração felizmente já são habi-tuais em muitas das nossas terras; a experiência mostra que, sendo bem feitas, garantem em boa parte aqueles valores que recordámos a respeito do Domingo.
Dizer que estas celebrações são iguais à Missa é um erro. Mas são muitos os seus valores: mostram que a Igreja está presente e viva na povoação; mantêm nos cristãos a consciência de pertencerem a uma comunidade e da obrigação de perseverarem nela; ajudam os fiéis a cumprirem o dever cristão de rezar juntos; alimentam a fé com a escuta semanal da Palavra de Deus, meditando as passagens bíblicas escolhidas para aquele dia em toda a Igreja; oferecem o alimento sacramental do Corpo do Senhor, que é o “pão da vida” para toda a semana, em comunhão com a celebração eucarística noutro lugar ou noutro dia.
Não podemos perder estas riquezas. Por isso mesmo, a santa Sé e muitos Bispos têm publicado sugestões e normas para que estas “celebrações domi-nicais na ausência do presbítero” se realizem e multipliquem, de acordo com a necessidade e as conveniências, e se façam de modo digno.
Em algumas das nossas Dioceses há muito que estas celebrações são um bem adquirido. As comunidades desejam-nas e bastantes cristãos oferecem-se para as dirigir.
Nós, Bispos, estamos atentos ao modo como se praticam. Sentimos que importa valorizá-las; sentimos também que é necessário evitar alguns desvios que tendem a enraizar-se.
Por isso, chamamos a atenção para o que dizemos de seguida.


Conhecer as normas publicadas

16. Convém primeiramente que os Párocos e os responsáveis locais por estas celebrações conheçam bem as orientações dadas pela Santa Sé e, se for o caso, pelo Bispo da sua Diocese.
A Congregação do Culto Divino publicou em 1988 o “Directório para as Celebrações Dominicais na ausência do Presbítero”. Trata-se de um documento claro e muito concreto; é necessário torná-lo conhecido de todos os cristãos que têm a responsabilidade de conduzir estas assembleias, de modo a que se observem as orientações que ali se contêm.
Destacamos, entre todas, as seguintes:
É fundamental que “se evite com cuidado qualquer confusão entre as reuniões deste género e a cele-bração eucarística” (n.° 22); os Párocos e outros responsáveis pastorais devem perguntar-se, com clareza e sinceridade, se naquele local, estas celebrações são efectivamente necessárias (n.° 18); tenha-se sempre em conta que elas exigem uma preparação cuidada: de quem as dirige e da assembleia a que se destinam (n.° 26). De seguida, o Directório propõe o esquema básico da celebração, com indicações úteis sobre as partes que o compõem e o modo como se deve realizar cada uma delas (n.° 41).
Temos acompanhado com interesse e atenção o crescimento desta nova prática da vida da Igreja. Mas para que ela continue a ser no futuro uma riqueza e uma fonte de graça, julgamos ainda oportuno sublinhar outros aspectos das celebrações que entre nós necessitam de maior cuidado.


A multiplicação das celebrações

17. A celebração dominical na ausência do pres-bítero, assim lhe chama o referido documento ofi-cial, não é um mero acto de piedade a difundir. Nem se identifica com qualquer outra celebração da Palavra de Deus, penitencial ou festiva. Convirá distingui--las até na própria designação. A celebração dominical destina-se a manter nos fiéis e nas comunidades os valores do Domingo e sua celebração. Por isso, os Párocos promovam-na somente onde a falta da Missa Dominical se sentir e não puder ser resolvida de outro modo.
Isto supõe que se valorize na mente dos fiéis o dever e o mérito que é o sacrifício de uma deslocação: fazendo-a, a pé ou em transporte, se a distância não for excessiva, os cristãos ganham em participar na Missa ou numa celebração sem presbítero realizada em lugar mais central.
Que o critério para a realização local de uma celebração dominical na ausência do presbítero seja, pois, o da sustentação e do crescimento da vida cristã e não o da cedência ao comodismo ou ao bairrismo.
Multiplicar desnecessariamente tais celebrações, realizando-as onde elas se não aconselham, só porque alguém se ofereceu para as garantir ou um grupo local as desejou na sua capela, acarretará prejuízo para a vida da comunidade paroquial; fazê-lo em alguns lugares, porventura próximos da sede paroquial ou templo de maior relevo, contribuirá para o enfraquecimento dos laços comunitários, favorecendo o indi-vidualismo ou a preguiça. Que nunca se perca a referência à igreja paroquial.
Cuidados semelhantes hão-de ter-se quanto à regu-laridade destas assembleias. O Pároco terá de ponderar o que é justo e melhor para cada uma das suas comunidades; que em todas aquelas onde houver tais celebrações se realize, ao menos de mês a mês, a Eucaristia.
Este cuidado poderá levar a que, mesmo em alguma sede de paróquia, por vezes se não celebre a Missa, para que o Pároco tenha possibilidade de ir a outras comunidades onde ela raramente acontece. Se assim for, ajude-se a comunidade que nesse domingo não teve a Ceia do Senhor, substituída por uma celebração dominical na ausência do presbítero, a aceitar essa privação com espírito humilde de partilha cristã.
Convirá que todas estas decisões sejam reflec-tidas em Conselho Pastoral.
Também os sacerdotes e outros responsáveis de um Arciprestado (ou Vigararia) deverão acertar entre si os critérios a seguir, de acordo com as orientações e tendências que se observam na Diocese.
Os sacerdotes procurem ainda, nas suas reu-niões, apreciar o modo como os cristãos consideram estas celebrações dominicais na ausência do presbítero. Se as vêem como substituição fácil da Missa ou como celebração possível, comunitária e festiva do Dia do Senhor. E elucidem os fiéis no sentido de eles reconhecerem ser seu dever participar na celebração quando lhes não for possível a presença na Missa.

A escolha do moderador

18. O Directório da Santa Sé lembra (n.os 29 e 30) que, havendo diáconos, deverão ser eles os primeiros a serem chamados para dirigir as celebrações; na sua falta, serão moderadores os leitores ou acólitos instituídos, caso existam. A situação mais comum será a de serem escolhidos homens ou senhoras capazes de conduzir uma boa celebração.
O importante é que estejam bem preparados para o fazer e nomeados pelo Bispo para esta missão, por um período determinado. Mas que nem os próprios nem os Párocos vejam neste serviço uma promoção.
Numa comunidade que justifique esta celebração dominical, será normal encontrar, com tempo e critério, um fiel baptizado, homem ou mulher, que se disponha a fazer a preparação necessária para ser condutor da oração na igreja da sua terra e em hora adequada para a comunidade.
Esta é uma perspectiva de futuro: privilegiar e preparar, nas pequenas comunidades, responsáveis locais. Diremos melhor: equipas locais de leigos responsáveis.
Mas não cause estranheza que insistamos no cuidado da sua escolha e da sua preparação. Para presidir a estas celebrações, há requisitos que não podem menosprezar--se: dignidade, conhecimentos, boa apresentação, interesse pessoal e aceitação pela comunidade.
Tal como a escolha e a preparação, também a formação contínua dos responsáveis pelas celebrações dominicais deve merecer-nos atenção. Poderemos fazê-la em âmbito diocesano ou regional, porventura ao nível de zona pastoral, de arciprestado (vigararia) ou até de paróquia, segundo orientações dos serviços diocesanos.
Os Párocos coloquem entre os seus cuidados o contacto frequente com estes seus colaboradores.
A respeito deles, queremos louvar o sacrifício e o desprendimento com que desempenham esta tarefa. E que o proveito económico não se intrometa neste serviço prestado aos irmãos, embora nos pareça justo remunerá-los por despesas feitas, como a dos transportes.
Pedimos-lhes ainda que aprofundem a sua formação cristã, nomeadamente nos campos da Bíblia e da Liturgia; e que cultivem aquelas qualidades e virtudes que se pedem a quem exerce ministérios; a principal será a da humildade: humildade para aceitar correcções, humildade para se desprender do cargo quando isso parecer oportuno.


O esquema da celebração

19. A celebração dominical dos cristãos de uma localidade há-de ser um encontro tranquilo, festivo e verdadeiramente espiritual, habitualmente convocado pelo toque dos sinos. Que ele se realize em hora conveniente, de acordo com a planificação paroquial.
Sobre o esquema da celebração, o Directório pede, antes de mais, que ela “dê a imagem de uma assembleia litúrgica e não de uma simples reunião” (n.° 35).
De seguida, lembra a riqueza que é, para uma comunidade cristã, ela estar unida à Igreja, escu-tando a mesma palavra e rezando com os mesmo sentimentos. Daí que as leituras e as orações sejam as do Leccionário e do Missal marcadas para aquele dia.
Convirá, como dizemos adiante, adoptar nas celebrações mais do que um esquema, sobretudo para deixar bem clara a distinção entre elas e a Missa. Mas em caso nenhum poderá omitir-se a proclamação da Palavra de Deus, feita com respeito e seguida de reflexão.
O comentário à Palavra há-de merecer particular cuidado ao Pároco ou sacerdote de quem depende a comunidade. Escreverá a homilia ou fornecerá um texto criteriosamente escolhido. Quem orien-ta a celebração deverá ater-se ao que lhe for indi-cado, evitando ser longo ou original.
Nunca se omita a profissão de fé.
Para as preces de cada Domingo dispomos de formulários oficiais, podendo introduzir-se alguma inten-ção da comunidade local.
A Comunhão Eucarística é elemento fundamental destas celebrações. Importa que ela seja feita de modo condigno, sendo aconselhável fazer-se um acto prévio de adoração ou um tempo de acção de graças.
A qualidade e os frutos da celebração dependem também do empenhamento com que a preparam os que nela participam. A limpeza e o arranjo do espaço, a escolha e o ensaio dos cânticos, a leitura prévia dos textos devem fazer-se como nos domingos em que se realiza a Eucaristia.


Esquemas vários

20. Algumas dioceses de Portugal adoptaram, com a aprovação do Bispo respectivo, respeitando sempre as normas da Santa Sé, modelos diversos de celebração dominical na ausência do presbítero. Procuram deste modo evitar a repetição e, sobretudo, acentuar a diferença em relação à Missa.
Os modelos poderão ser diversos. Mas sublinhamos o que determina o Directório: o esquema da cele-bração dominical na ausência do presbítero, seja ele único ou variado, requer a aprovação do Bispo Dio-cesano.




IV

OUTROS GESTOS PARA A CELEBRAÇÃO
DO DOMINGO



Louvar a Deus, construindo a Igreja

21. No início deste texto, esclarecemos o nosso intuito: ajudar os fiéis e as comunidades a celebrarem e viverem o Domingo, mesmo quando, por circunstâncias várias, não tenham ao seu alcance a participação na Santa Missa.
A Missa é o coração do Domingo; mas viver bem este dia supõe outras atitudes e outros gestos que também concorrem para fazer dele o Dia do Senhor e o dia dos cristãos.
Assim, estas instruções pastorais querem ser um eco da recente Carta Apostólica do Santo Padre sobre a santificação do Domingo: “O Dia do Senhor”.
Unidos ao Papa, pedimos aos fiéis das nossas comunidades, pensando inclusivamente nas mais distantes e humildes, que santifiquem o Dia do Senhor também com outros actos de fé e caridade, tais como a visita a doentes, o encontro da família, a cate-quese, as reuniões de formação, as actividades apostólicas, as iniciativas de voluntariado em ordem ao bem comum, a leitura da Bíblia, a oração individual, familiar ou comunitária (hora de vésperas ou terço), as peregrinações regionais...
Tudo isto supõe e requer o respeito pelo descanso dominical, no sentido em que a Sagrada Escritura e a Liturgia nos indicam.
E quando o repouso do trabalho quotidiano, explicitado pelo Mandamento da Igreja, proporciona oportunidades para o amor do próximo, então Deus é louvado.


Prever o futuro

22. Os Párocos e outros pastores do Povo de Deus têm-se mostrado sacrificadamente zelosos para que a Eucaristia se não deixe de celebrar onde era habitual, visto ser ela o alimento principal da fé e da vida cristã. Agradecemos este zelo; mas pedimos-lhes que nos acompanhem na preocupação de prever e preparar o futuro.
Devido à diminuição de sacerdotes e à redução de habitantes em muitas populações das nossas Dio-ceses, a celebração da Eucaristia dominical continuará a sofrer limitações previsíveis. Ela é o centro e a fonte principal da vida cristã; mas não será o único pilar da fé nas nossas comunidades.
Crentes no Espírito de Deus e motivados pelo exemplo de outras Igrejas particulares do mundo católico, havemos de construir comunidades locais vivas, animadas por responsáveis que Deus suscita. Importante é sabermos escolhê-los e chamá-los, dar-lhes formação, acompanhá-los. Ajudar estas comu-nidades a organizar e garantir a celebração do Domingo será um passo importante para o futuro.








V

CONCLUSÃO


23. Escrevemos nas primeiras linhas que nós, Bispos, procuramos estar atentos às mudanças que se verificam nas nossas Dioceses e responder-lhes pastoralmente.
Sabemos que padres, religiosos e leigos nos acom-panham nesta atenção à vida da sociedade e das comunidades cristãs, bem como na busca de respostas adequadas.
Este zelo supõe, evidentemente, uma séria e indis-pensável pastoral de evangelização. É nesse quadro que se hão-de ver estas instruções pastorais, para as quais esperamos o melhor acolhimento e aplicação.
Exortamos mesmo a que elas sejam comentadas nas reuniões dos grupos apostólicos e pedimos aos párocos que as divulguem, designadamente entre as pessoas que mais contribuem para a dinamização das comunidades, e que leiam ao povo, comentando-as, ao menos as passagens mais significativas.
Em diversos lugares do texto falamos de sinais afirmativos e esperançosos: acima de todos, a solicitude dos nossos párocos em garantir o alimento da fé aos filhos de Deus; mas também a abertura e a fidelidade dos fiéis em participarem nas celebrações dominicais moderadas por um religioso ou irmão leigo; a generosidade com que muitos homens e mulhe-res se disponibilizam para conduzir essas celebrações, tantas vezes com deslocações sacrificantes. Tudo isto nos mostra uma Igreja em que os fiéis cada vez mais se sentem responsáveis e participantes na vida da comunidade. Damos graças a Deus por isso.
Neste Ano Jubilar da Encarnação do Verbo, reafirmamos a esperança de ver os baptizados em Cristo serem o fermento do Evangelho numa sociedade em transformação.
Que a Mãe de Jesus abençoe a nossa esperança.

18 de Setembro de 2000


Os Bispos das Dioceses do Centro

António Baltasar Marcelino, Bispo de Aveiro
António Monteiro, Bispo de Viseu
António dos Santos, Bispo da Guarda
Augusto César Alves Ferreira da Silva, Bispo de Portalegre-Castelo Branco
João Alves, Bispo de Coimbra
Serafim de Sousa Ferreira e Silva, Bispo de Leiria-Fátima
Albino Mamede Cleto, Bispo Coadjutor de Coimbra