Carta
Pastoral da Conferência Episcopal
“DEUS-PAI,
Criador e senhor”
“Deus e Pai de Nosso Senhor
Jesus Cristo”
(Ef 1, 3-4)
I. Introdução
1. Aproxima-se a celebração do Grande Jubileu do Ano 2000. Seguindo a
pedagogia sugerida pelo Santo Padre, entramos no terceiro ano de preparação
imediata, o que significa um alerta para nos pormos ao ritmo do Jubileu,
pela renovação interior da nossa vida cristã, que há-de conduzir, por sua vez,
à renovação da Igreja. Esta, mais identificada com Cristo, tornar-se-á mais
capaz de realizar a missão que o Senhor lhe confiou.
O Jubileu celebra 2000 anos do nascimento de
Jesus Cristo, verdadeiro centro das celebrações jubilares (TMA, n.º 49).
O desafio que nos é proposto é o de tomarmos a sério Jesus Cristo, de
nos abandonarmos a Ele como crentes, de O seguirmos como discípulos, de
penetrarmos no mistério da sua Pessoa, na sua relação com Deus-Pai, na sua
consciência da missão de Redentor, no Reino de Deus que anunciou, na vida nova
que nos comunicou.
O encontro com Jesus Cristo introduz-nos,
misteriosamente, no mistério de Deus, Trindade Santíssima, descobrindo a Igreja
“como um povo que vai buscar a sua unidade, à unidade do Pai, do Filho e do
Espírito Santo” (LG, n.º 4). Por Jesus Cristo, o cristão chega à
comunhão trinitária, podendo aprofundar a relação salvífica com cada uma das
Pessoas divinas. É essa a proposta para a celebração do Jubileu.
São diversos os caminhos através dos quais o
homem procura Deus. Na pedagogia do Jubileu, João Paulo II apresenta-nos a via
cristã: Cristo é o caminho para a descoberta de Deus. A própria ordem
com que, no projecto de caminhada Jubilar, cada uma das pessoas divinas nos é
apresentada como proposta de relação pessoal – o Filho, o Espírito Santo, o Pai
– não é a sugerida pelas relações essenciais das Pessoas divinas, entre si, no
mistério da Trindade, mas a que brota da experiência da salvação. Na
caminhada cristã, a partir da relação com Cristo, guiados pelo Espírito que Ele
nos comunica, chegamos a Deus Pai, mergulhando na Trindade.
Cristo é o ponto de partida, sempre presente,
com a força do Espírito, na nossa caminhada para Deus-Pai. Quisemos, nos dois
primeiros anos da preparação, contribuir para a descoberta do espírito Jubilar,
por parte dos cristãos e das comunidades, com duas Cartas Pastorais: “Jesus
Cristo, nosso Salvador e Senhor”, que nos convidava ao aprofundamento da
nossa relação vital com Jesus Cristo; “O Espírito Santo, Senhor que dá a
vida”, que nos propunha a descoberta da acção do Espírito Santo na Igreja.
De igual modo, neste último ano de preparação, dirigimos à Igreja, que está
entre nós, a presente Carta Pastoral sobre Deus-Pai, a primeira Pessoa da
Santíssima Trindade, a Quem chegamos por Jesus Cristo, guiados pelo Espírito
Santo.
2. Assim não nos afastamos de Jesus Cristo. Na proposta do Papa, “o
ano de 1999, terceiro e último ano preparatório, terá por função alargar os
horizontes do crente até à própria perspectiva de Cristo: a perspectiva do Pai
que está nos Céus (cf. Mt 5, 45), que O enviou e a Quem Ele
retornou” (cf. Jo 16, 28 in TMA, n.º 49).
O convite é, pois, o de penetrar na dimensão
mais íntima de Jesus Cristo, a sua relação com Deus e, participando nela,
conhecer Deus como Ele conhece. O caminho proposto insere-se na nossa
fidelidade de discípulos, deixando-nos conduzir, por Cristo, ao insondável
mistério de Deus. Somos convidados a participar na atracção que Jesus sentia
pela Casa do Pai e, assim atraídos, deixar que toda a nossa vida se transforme
ao ritmo de Deus. A vida do cristão torna-se, toda ela, uma grande
peregrinação para a Casa do Pai (cf. TMA, n.º 49).
Ao dirigir aos cristãos católicos mais esta
Carta Pastoral, convidamos todos a caminhar connosco, em Igreja, ao encontro
do Deus vivo, que nos ama como Pai de misericórdia. As propostas pastorais
para as nossas dioceses, neste último ano de preparação para o ano 2000, devem
ajudar os fiéis a descobrir o mistério do Deus-Amor, de modo a que todos os que
buscam o seu rosto, possam conhecer o Deus de Jesus Cristo e beber n’Ele a
experiência da vida nova, em ordem a uma civilização do amor.
II. O homem
contemporâneo perante o problema de Deus
3. Ao centrar a proposta pastoral para este ano pré-jubilar sobre a
primeira Pessoa da Santíssima Trindade – Deus-Pai, a Igreja procura dar
resposta às inquietações dos nossos contemporâneos, proporcionando-lhes um
encontro com o Deus vivo, nosso Pai que está nos Céus.
A questão fundamental do homem é, desde as
origens, e continua a ser hoje, o conhecimento de Deus. Há no coração de cada
homem uma abertura ao absoluto de Deus, que se transforma em inquietação
impossível de silenciar. Por outro lado, a existência de Deus é misteriosa e
exige a fé, pois nenhuma resposta racional saciará a ânsia do mistério. Podemos
dizê-lo claramente: Deus é o principal problema do homem, pois n’Ele reside
a resposta radical para a sua busca de sentido e de felicidade, na vida.
Uma das características da cultura
contemporânea reside no interesse pelo homem, na procura do sentido da sua
existência e da compreensão do seu mistério. A busca de Deus aparece, assim,
indissociável do problema do homem, da sua dignidade, da sua liberdade, do seu
destino. Já o Concílio Vaticano II o afirmara: “neste tempo, cada homem
permanece aos seus próprios olhos uma questão insolúvel que capta de maneira
confusa. Em certos momentos, sobretudo por ocasião dos grandes acontecimentos
da vida, ninguém pode fugir a este género de interrogação. Só Deus lhe pode
responder plenamente e de maneira irrecusável, Ele que nos convida a uma
reflexão mais profunda e a uma busca mais humilde” (GS, n.º 21, §
4).
Deus não pode aparecer em oposição a esta
inquietação do homem, mas antes como resposta. “A Igreja afirma que o
conhecimento de Deus não se opõe, de modo nenhum, à dignidade do homem, pois
essa dignidade encontra no próprio Deus, o seu fundamento e a sua plenitude”
(GS, n.º 21, § 3).
Em Nosso Senhor Jesus Cristo torna-se
definitivamente claro que só à luz de Deus se percebe o homem. “De facto o
mistério do homem só se esclarece verdadeiramente à luz do Verbo encarnado”
(GS, n.º 22; cf. RH, n.º 8). Tentar perceber e dignificar o
homem, excluindo Deus, é um caminho sem saída, pois o homem é participação da
realidade divina.
4. São diversas as atitudes dos nossos contemporâneos perante o problema
de Deus:
- O ateísmo designa a atitude
daqueles que procuram justificar racionalmente a negação de Deus, ou porque não
cabe dentro dos parâmetros da razão humana, ou porque Deus significaria a
negação do carácter absoluto do homem, considerado como último ponto de
referência de si mesmo, único responsável pela sua libertação e pela sua
história (cf. GS, n.º 19).
Sendo, tantas vezes, uma reacção ao rosto
desfigurado de Deus, apresentado por alguns crentes, o ateísmo não resolve nem
anula o problema; ao contrário, trata-se de uma resposta dramática a uma
inquietação que não se pode esquecer.
- O agnosticismo é a atitude
daqueles que afirmam não tomar nenhuma posição perante o problema de Deus, como
se fosse possível esclarecer o problema do homem sem tomar posição acerca de
Deus.
- O pragmatismo ateisante: é a
atitude de muitos homens e mulheres nossos contemporâneos que aceitam o
princípio da existência de Deus, mas de facto vivem como se Ele não existisse
ou, dito de outra maneira, o facto de aceitarem a existência de Deus em nada
influencia a sua maneira de conceber e viver a vida. A esta atitude não são
alheios mesmo muitos cristãos. Não entenderam que tomar Deus a sério significa,
inevitavelmente, aceitar transformar à sua luz a própria vida.
Esta espécie de “ateísmo prático”, fruto de
uma perspectiva imediatista e materialista da existência, procura calar todas
as inquietações profundas, relegando o problema de Deus para um amanhã nunca
assumido. A superficialidade de existências superocupadas e repetitivas é o
principal obstáculo ao encontro do homem com Deus, pois Este só se descobre no
mais íntimo e profundo do coração.
O Deus em que dizem acreditar não é o Deus
vivo da História da Salvação, o Deus da Aliança, da misericórdia e do amor,
fonte de vida e princípio de transformação interior. Esta insensibilidade das
pessoas e das culturas só pode ser vencida com a força do Espírito, através do
poder criador da Palavra e do testemunho dos crentes. Por isso a proposta do
Jubileu é também um convite ao anúncio do Deus vivo.
A variedade dos caminhos da busca de Deus
5. Na experiência da humanidade são múltiplos e variados os caminhos da
busca de Deus. Desde a contemplação da criação e da harmonia do universo, que
falam ao homem de um Ser superior a Ele, até ao mergulhar, por parte do homem,
no seu próprio mistério, deixando que venham ao de cima as perguntas radicais
sobre o sentido da vida, o homem mostrou-se, tantas vezes, um peregrino do
absoluto. Mesmo quando a ciência procurou uma compreensão do universo,
reduzindo-o à dimensão do homem e anulando a sua relação com Deus criador ela,
não respondeu às mais profundas inquietações do coração humano.
Nesta busca, os homens aperceberam-se de que
Deus também vinha ao seu encontro, dando sinal de Si e do seu interesse por
eles, revelando-Se. Saber
captar os seus sinais, escutar a palavra dos profetas e homens religiosos que
falavam em nome de Deus, tornou-se elemento significativo nessa procura de
Deus, onde as religiões passaram, assim, a ocupar um papel importante. Sem
desvalorizarem o esforço do homem, elas propõem a resposta de Deus. A sua
importância avalia-se a partir da credibilidade da revelação de Deus que cada
uma veicula.
Mesmo no judeo-cristianismo, como o reconhece
a Carta aos Hebreus, há uma multiplicidade de formas de Deus falar aos homens.
“Depois de ter, muitas vezes e de muitas formas, falado, outrora, aos nossos
Pais, pelos profetas, nestes tempos, que são os últimos, Deus falou-nos pelo
Filho” (Hb 1, 1-2). É difícil ir mais longe: poder ouvir o próprio
Filho de Deus a falar-nos de Deus (cf. DV, nn. 2-4).
É esta mensagem que, sempre, e de modo particular
durante este ano, a Igreja deve comunicar a todos os que, sinceramente, buscam
o rosto de Deus: Jesus Cristo é o caminho; Ele introduz-nos na intimidade de
Deus. E os cristãos sabem, na sua fé, que esse caminho é universal, é
válido para todos os homens e que todos os meios de chegar a Deus convergem
para Jesus Cristo e encontram n’Ele a sua plenitude.
Cristo é o caminho da Igreja para chegar a
Deus
6. Na sua resposta ao Apóstolo Tomé, o próprio Jesus se apresenta como o
único caminho para chegar ao Pai: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Ninguém vai ao Pai, a não ser por Mim. Se me conhecêsseis, conheceríeis também
Meu Pai” (Jo 14, 6-7).
A ânsia do absoluto, semeada por Deus no
coração do homem, não se sacia com o simples reconhecimento da existência de
Deus. Podemos aceitar que Deus existe e Ele continuar a ser, para nós, um
desconhecido. O homem foi criado para penetrar e participar da intimidade de
Deus e aí só Jesus Cristo, o Filho, nos pode introduzir. “Tudo me foi
entregue por meu Pai e ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, como ninguém
conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt
11, 27).
Cristo é o caminho da Igreja para penetrar no
santuário da intimidade de Deus. Quantas vezes perdemos tempo e energias a
tentar demonstrar que Deus existe e encontrar resposta para as nossas dúvidas.
Unamo-nos a Jesus Cristo, na fé, com amor e confiança, e Ele introduzir-nos-á
nos segredos de Deus. Ninguém corre riscos, centrando a sua fé na pessoa de
Jesus Cristo; Ele próprio nos comunica o Espírito e nos revela o Pai. Não é por
acaso que toda a oração da Igreja é dirigida ao Pai, por Jesus Cristo, na
unidade do Espírito Santo. O nosso itinerário para Deus é a identificação
com Cristo. Importa ter de Deus o conhecimento e a experiência de Jesus,
que se aprofundarão durante toda a nossa peregrinação terrena, para atingir, na
eternidade, a plenitude da luz.
III. O Deus da
Aliança
7. A revelação que Jesus Cristo nos faz de Deus, como Pai que nos ama,
é a plenitude da revelação divina, acolhida e vivida no contexto da aliança com
Israel. Aí se alicerça a fé do Povo, não num Deus distante, mas num Deus
próximo, que quer conviver com os homens e construir, com eles, uma história
comum de intimidade e de comunhão, de liberdade e de graça, uma história de
salvação. É nesse contexto que o povo faz a experiência de um Deus que o ama,
que o conduz segundo um desígnio de amor, que revela a sua intimidade e os
segredos insondáveis do Seu coração e que espera ser correspondido no amor e na
fidelidade.
A experiência da aliança transpõe o
problema de Deus da discussão do que Deus é para a experiência libertadora
do que Deus faz pelo Seu Povo. A memória desta gesta salvífica de Deus
prevalece sobre a natural curiosidade da razão de tentar perceber Deus. É
saboreando essa proximidade amorosa de Deus que o povo vai descobrindo
quem Ele é: Criador, Redentor e Pai.
Quando Deus aparece a Moisés, no Sinai,
apresenta-se como o Deus que, atento aos gemidos do Seu Povo oprimido, lembra a
Aliança celebrada com os santos patriarcas (cf. Ex 2, 24). É como Deus
que não esquece a promessa, que manifesta sentimentos de piedade e de
misericórdia, que Ele se apresenta a Moisés: “Eu sou o Deus de teu pai, o
Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob” (Ex 3, 6).
A própria ideia de omnipotência divina, tão
comum a todas as religiões na definição da divindade, afirmada na revelação de
Deus a Abraão (cf. Gén 17, 1-2), manifesta-se a Israel no poder criador
da Palavra e na força transformadora do amor salvífico de Deus. A liturgia
exprime esta compreensão da omnipotência divina: “Senhor, que dais a maior
prova do vosso poder quando perdoais e vos compadeceis...” (Oração colecta do
XXVI domingo comum).
Nosso Senhor Jesus Cristo é a plenitude da
aliança. Ele comunica uma
imagem de Deus que leva às últimas consequências o amor salvífico pelo seu
povo: Deus é um Pai de misericórdia. “o poder de Deus é o poder de quem ama;
e este poder não se revela onde há força, mas onde há fraqueza, não se revela
na arrogância, mas na humildade de quem experimenta que só Deus pode, porque é
amor” (CIC, n.º 273).
Na sua fragilidade, Cristo manifestou-se como
força e sabedoria de Deus (cf. 1 Cor 1, 24-25). E para penetrar nesse
mistério do amor misericordioso e salvífico do Deus da Aliança, bastará aos
discípulos fazer memória: “Este é o cálice do Meu sangue... da nova e
definitiva aliança... fazei isto em memória de Mim”.
O Santo nome de Deus
8. Na tradição bíblica a revelação do nome de Deus era importante para
o conhecimento íntimo do próprio Deus. E quando a fé de Israel se exprimiu
em termos de aliança, o conhecimento do nome de Deus era urgente e decisivo.
Como poderia viver-se em aliança com um Deus de quem não se conhecia o nome?
Para os Judeus o nome exprimia a identidade
profunda da pessoa: a sua ligação a uma linhagem, a uma casa e a uma missão
concreta, tantas vezes designada por Deus, no seio da comunidade. É natural que
as pessoas mudem de nome quando uma nova missão lhes é atribuída (cf. Gén
17, 4ss; Mt 16, 17-19). O nome encerrava a identidade profunda da
pessoa e desta fazia parte a maneira como se situava no mistério da aliança,
no seio da história de um povo. Por isso, quando Deus chamava alguém para uma
missão concreta, chamava-o pelo nome: “Yahwé chamou-me desde o seio de minha
mãe, desde o seio Ele pronunciou o Meu nome” (Is 49, 1).
Conhecer o nome era, assim, penetrar no mais
íntimo da identidade e da missão de alguém. Compreende-se, no contexto da
aliança, o desejo dos crentes de conhecerem o nome de Deus e a gradualidade com
que Deus revela o seu nome. Esse seria, para o povo e para os crentes, um
momento irreversível da aliança.
Na história de Jacob há um momento em que Deus
lhe aparece e o diálogo, sob a forma de luta, processa-se à volta do mistério
do nome. Deus muda o nome a Jacob, porque lhe entrega uma nova missão; Jacob
quer saber o nome de Deus: “Revela-me o teu nome, peço-te”. E Deus
responde-lhe: “Mas porque é que me perguntas o nome?”. Abençoou-o mas não lhe
revelou o nome (cf. Gén 32, 30).
A necessidade de conhecer o nome de Deus surge
no contexto da aliança.
Quando Deus entrega uma missão, muitas vezes muda o nome daquele que envia; o
crente sente, então, necessidade de conhecer o nome divino. No Sinai, Moisés ao
receber a missão diz a Deus: “Está bem! Vou ter com os filhos de Israel e
digo-lhes: o Deus de nossos pais enviou-me a vós! Mas, se me perguntarem qual é
o seu nome, que lhes responderei?” (Ex 3, 13).
Quanto mais Deus nos compromete na realização
do seu desígnio na história, mais precisamos de penetrar na sua intimidade. Deus deseja revelar-Se, mas fá-lo ao ritmo
da possibilidade dos homens se poderem comprometer nessa fase irreversível da
aliança.
9. Na revelação progressiva do seu nome, Deus manifesta-se como um
Deus que salva. Será através da experiência da salvação que o povo perceberá,
progressivamente, quem é o seu Deus. A Abraão Deus revela-Se como “El
Shaddai” – o Omnipotente. O nome divino ainda é o comum a todas as
religiões e a todos os deuses, mas o atributo, que lhe é dado, tem a ver com a
aliança (cf. Gén 17, 1). Deus é omnipotente, pode realizar o que
promete.
Na revelação do Seu nome a Moisés, Deus sublinha
a sua solicitude salvífica pelo Povo de Israel. Porque a história de salvação
de Israel é única, o nome do Deus de Israel é único, inconfundível com os
deuses dos outros povos: Yahwé, “eu sou aquele que sou”. Falarás assim
aos filhos de Israel: “Eu sou enviou-me a vós” (cf. Ex 3, 13-15).
O próprio Deus sublinha a novidade na
revelação do Seu nome a Moisés: “Eu sou Yahwé. Manifestei-Me a Abraão, Isaac
e Jacob com o nome de “Deus Omnipotente” (El Shaddai), mas não Me dei a
conhecer a eles com o nome de Yahwé... Mas quando ouvi os gemidos dos filhos de
Israel escravizados pelos Egípcios, lembrei-Me da minha aliança. Dirás, pois,
aos filhos de Israel: Eu sou Yahwé, e libertar-vos-ei da opressão a que sois
sujeitos pelos Egípcios” (Ex 6, 2-6). No contexto da fidelidade à
aliança, o nome de Deus revela aos israelitas quem é o seu Deus: um Deus fiel à
aliança, que acompanha com solicitude as vicissitudes do Seu povo e que vem ao
seu encontro para o salvar. Deus salvador é o nome de Deus. A revelação
do nome divino constitui, definitivamente, as bases da aliança. Israel poderá
agora confiar no seu Deus. “Vós sereis o meu povo e Eu serei o vosso Deus”
(cf. Ex 6, 6-8).
10. A partir desse momento a história do povo da aliança será um
conhecimento progressivo do nome de Deus, isto é, da radicalidade do amor
salvífico de Deus. Nesse contexto, Deus vai-se revelando como pessoa, com
sentimentos de piedade, de misericórdia, de fidelidade e de justiça.
Compreende-se que seja em Nosso Senhor Jesus Cristo, expressão máxima do Deus
salvador, que a revelação do nome de Deus atinge uma profundidade, impossível
até então. Ele é Pai de misericórdia, é o próprio amor que salva. Ao ser-nos
revelado que “Deus é amor” (1 Jo 4, 8-16), não estamos perante
uma definição abstracta da essência divina, mas antes, perante a fonte do amor
salvífico, o amor infinito entre as Pessoas divinas. Ao revelar o Seu nome,
Deus manifesta o seu carácter pessoal, no mistério da comunhão trinitária.
O Verbo encarnado revela-se como Filho e o seu
nome é, para nós, a última revelação do amor salvífico de Deus. “Por isso
Deus o exaltou e lhe deu o Nome que está acima de todo o nome, para que, ao
nome de Jesus tudo se prostre, nos céus, na terra e nos infernos e que toda a
língua proclame que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fil
2, 9-11).
O nome de Jesus tem, para nós, a densidade do
Santo nome de Deus. Progredir na nossa história de graça é penetrar no segredo
desse nome e a Igreja não se cansa de o pedir: “Deus do universo, de quem
procede todo o dom perfeito, infundi em nossos corações o amor do Vosso nome”
(oração colecta do XXII domingo do tempo comum).
Deus criador e fonte de vida
11. A compreensão de Deus como amor salvífico e misericordioso, levou o
Povo de Deus a conceber a criação como um acto de amor divino.
Deus criou o mundo porque quis criar o homem, predestinando-o à intimidade
consigo, em vista da encarnação do próprio Verbo de Deus, que será a plenitude
da criação. Esta aparece-nos, assim, como o primeiro acto de uma história de
salvação.
Ao contrário das cosmogonias antigas, na
Bíblia a criação aparece-nos como um acto da liberdade divina e de um desígnio
acerca do homem, que só se esclarecerá completamente em Jesus Cristo. O homem é
criado à imagem de Deus (cf. Gén 1, 27); mas só Cristo é a imagem
perfeita do Pai (cf. 2 Cor 4, 4).
Esta dimensão cristocêntrica e salvífica da
criação é claramente afirmada no Novo Testamento: “Bendito seja Deus e
Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a espécie de bençãos
espirituais, nos céus, em Cristo. Ele escolheu-nos, em Cristo, antes da criação
do mundo, para sermos santos e imaculados, na sua presença, no amor,
determinando antecipadamente que seríamos, para Ele, filhos adoptivos em Cristo”
(Ef 1, 3-5).
Sem esta visão da criação, toda a história da
salvação perderia sentido. Não seria a realização de um desígnio eterno e
apareceria como uma correcção de percurso. Deus quis o homem por si mesmo e
amou-o no acto mesmo em que o criou. E este é o fundamento da sua dignidade e
do carácter sagrado da vida humana. Como ensina o Concílio Vaticano II, “o
aspecto mais sublime da dignidade humana encontra-se na vocação do homem a
viver em comunhão com Deus. Este convite que Deus dirige ao homem para dialogar
com Ele começa com a existência humana. Se o homem existe, é porque Deus o
criou por amor e, por amor, lhe dá continuamente o ser; e o homem só vive
plenamente, na verdade, se reconhecer livremente este amor e se abandonar ao
seu criador” (GS, n.º 19).
Deus é a fonte da vida, tanto na criação, como
na redenção. A comunicação,
por dom total, da vida de Deus, que é, no seio da Trindade, a relação geradora
do Verbo, no Espírito Santo, cria igualmente o homem e redime-o comunicando-lhe
a vida divina, por Cristo, no Espírito.
IV. O Deus de Jesus
Cristo
12. Jesus Cristo é a plenitude da aliança, a expressão radical e
definitiva do amor salvífico e misericordioso de Deus. Enquanto Verbo
eterno de Deus encarnado, exprime a solicitude paternal de Deus pelo seu povo;
enquanto homem, atinge a plenitude da criação e experimenta a total comunhão de
vida com Deus. Jesus fala-nos de Deus a partir da intimidade da comunhão
trinitária, donde brota esse amor misericordioso que nos criou e redimiu.
O primeiro caminho para participar na experiência
que Jesus tem de Deus é escutar a sua Palavra. Jesus falou abundantemente de
Deus aos discípulos. Mas quem é Deus para Jesus Cristo?
Meu Pai e vosso Pai
13. Deus é para Jesus um Pai, com toda a densidade de significado que essa
palavra evoca na linguagem humana. Antes de mais, Jesus sabe que procede de
Deus. Deus é a sua origem. “Eu saí do Pai e vim ao mundo; agora deixo o mundo e
vou para o Pai” (Jo 26, 28). Como é importante aprendermos, com Jesus,
que temos em Deus a nossa origem e que Ele é também o nosso destino, a nossa
terra prometida.
Deus é, para Jesus, um Pai que garante a
certeza de uma comunhão contínua.
“Vós deixar-me-eis sozinho. Mas eu não estou sozinho. O Pai está comigo”
(Jo 26, 32). Se os homens descobrissem que só Deus os impede
radicalmente de caírem na solidão e que a própria comunhão fraterna encontra a
sua força neste Pai comum a todos nós!
Jesus revela existir entre Ele e o Pai uma
união íntima e vital. “Eu estou no Pai e o Pai está em Mim” (Jo
14, 10-11), expressão de uma identidade que não anula a diferença: “quem Me
viu, viu o Pai” (Jo 14, 9); “Eu e o Pai somos um” (Jo
10, 30).
O Senhor sabe-se enviado pelo Pai, como
mensageiro da sua solicitude salvífica (cf. Jo 6, 57). Foi por causa da salvação do
mundo que o Pai o consagrou e enviou ao mundo (cf. Jo 10, 36). Por isso
cultiva a obediência filial; a fidelidade à missão recebida e à
vontade salvífica de Deus são um absoluto. Ele deve realizar o desígnio de Deus
e por isso acrescenta: “Se Eu não fizer as obras de Meu Pai, não acrediteis
em Mim” (Jo 10, 37).
Esta obediência filial Jesus viveu-a até à
morte, passou pelo dom da própria vida oferecida em sacrifício (cf. Fil
2, 6ss). A esse momento supremo da sua missão, Jesus chama, várias vezes, o
cálice que tem de beber, numa maravilhosa referência à ceia pascal e à
Eucaristia. A Pedro, que pretende defendê-l'O com a espada, Jesus diz: “Então
o cálice que o Pai me deu, não o hei-de beber?” (Jo 18, 11). E no
Jardim das Oliveiras, em agonia, a sua oração é a de um filho obediente e fiel:
“Pai se Tu quiseres, afasta de mim este cálice; no entanto, faça-se a Tua
vontade e não a minha” (Lc 22, 42).
S. Paulo explica na Carta aos Filipenses que
esta obediência e fidelidade mereceram a Jesus, por parte de Deus Pai, a glória
da ressurreição (cf. Fil 2, 9). Jesus tem consciência dessa fidelidade
do Pai para consigo: “Pai, chegou a hora; glorifica o teu Filho, para que o
teu Filho Te glorifique” (Jo 17, 1). “Glorifiquei-Te sobre a
terra; acabei a obra que me tinhas dado para fazer. Agora, ó Pai, glorifica-Me
com a glória que tinha junto de Ti, antes da criação do Mundo” (Jo
17, 4-5).
O Senhor sabe que a sua última manifestação,
como salvador, consistirá na sua plena glorificação. “O Filho do Homem há-de
vir na glória de seu Pai, com os seus anjos” (Mt 16, 27).
14. Ao falar-nos de Deus como seu Pai, Jesus revela-nos a paternidade
de Deus a nosso respeito. Essa é a grande surpresa da revelação evangélica;
Deus é, para nós, um Pai. Partilhamos esse mistério com Jesus Cristo. Deus
ama-nos, chamou-nos à santidade, envia-nos em missão, promete-nos a glória
eterna. A beleza da vida cristã consiste em descobrir e saborear,
progressivamente, a nossa situação de filhos de Deus, como exclama S. Paulo
na Carta aos Gálatas: “E a prova de que sois filhos, é que Deus enviou aos
nossos corações o Espírito de seu Filho que grita: Abba, ó Pai! Assim já não és
escravo mas filho” (Gal 4, 6-7).
Este texto deixa-nos entender que somos filhos
de Deus, não apenas porque somos criaturas suas, mas porque partilhamos a
própria maneira como Jesus é Filho de Deus Pai. Depois de ressuscitado Jesus
diz a Madalena: “Vai encontrar os irmãos e diz-lhes: subo para meu Pai e
vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17). Aos próprios
discípulos revela que Deus os ama como filhos, como se fossem Ele, o próprio
Filho: “Vai chegar a hora em que já não vos falarei por figuras; vou
falar-vos claramente acerca do Pai. Nesse dia pedireis em meu nome e não vos
digo que vou interceder por vós junto do Pai, pois o próprio Pai vos ama,
porque vós me amais e acreditais que eu vim de Deus” (Jo 16, 26-27).
Esta participação na filiação divina de Jesus,
faz de nós filhos de Deus de uma maneira inaudita e surpreendente, é a maior
manifestação da nossa comunhão com Deus, em Jesus Cristo. “A nossa comunhão
é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1 Jo 1, 3). A partir
desta comunhão, Deus trata-nos como ao seu próprio Filho; em termos de missão:
“Como o Pai Me enviou, assim Eu vos envio a vós” (Jo 20, 21); “Como
Tu Me enviastes ao mundo, também Eu vos enviei ao mundo” (Jo 17,
18). E em termos de glorificação: “Pai, aqueles que Me deste, quero que lá
onde estiver, eles estejam também comigo, para que contemplem a glória que Tu
Me deste, porque Me amaste antes da criação do mundo” (Jo 17,
24-25). “Vinde benditos de meu Pai, recebei a glória” (Mt 25,
34), será a palavra que ouvirão do Senhor, no dia definitivo de Deus.
Viver este ano pré-Jubilar como uma
peregrinação para a Casa do Pai é, antes de mais, aprofundar e saborear, em
todas as suas manifestações e consequências, a maravilha da nossa filiação
divina.
Deus é, para nós, um Pai de misericórdia
15. A nossa elevação à condição de filhos é fruto do amor misericordioso
de Deus. Que a fraqueza e o pecado dos homens não constituam obstáculo radical
a que sejam elevados à intimidade filial com Deus, é a maravilha da salvação.
Jesus anunciou este amor misericordioso de Deus, ao contar a parábola daquele
pai bondoso que acolhe em festa o regresso do filho pródigo que andava perdido
(cf. Lc 15, 11-32). É que, para todos nós, a salvação consiste nesse
regresso à Casa do Pai.
Pai de misericórdia, o nosso Deus é um Deus de
consolação, como lhe chama S. Paulo: “Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor
Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação” (2 Cor
1, 3).
Viver o Jubileu como regresso à Casa do Pai, supõe a confiança do pródigo: “Vou
partir, voltar para meu pai e dizer-lhe: pai, pequei contra o Céu e contra ti;
já não mereço ser chamado teu filho, trata-me como um dos teus trabalhadores”
(Lc 15, 18-19). Como nos diz o Santo Padre, “neste terceiro ano, o
sentido do caminho para o Pai deverá impelir todos a compreenderem, na adesão a
Cristo Redentor do homem, um caminho de autêntica conversão... É este o
contexto adequado para a descoberta e intensa celebração do Sacramento da
Penitência, no seu significado mais profundo” (TMA, n.º 50).
Somos convidados, para descobrir este amor
misericordioso de Deus, a valorizar a celebração deste sacramento. Nele, pela
força do Espírito Santo, o cristão faz a experiência do Deus misericordioso,
que nos acolhe como um Pai e nos reenvia, para a comunidade e para a sociedade,
como anunciadores da misericórdia e do perdão. O próprio Jesus recomendou aos
discípulos: “Mostrai-vos misericordiosos, como o Vosso Pai é misericordioso”
(Lc 6, 36).
O Santo Padre lembra-nos que “o anúncio da
conversão, qual exigência imprescindível do amor cristão, é particularmente
importante na sociedade actual, onde tantas vezes parecem perdidos os próprios
fundamentos de uma visão ética da existência humana” (TMA, n.º 50).
Deus é amor
16. É o ponto culminante da revelação neo-testamentária: Deus é amor e
é a fonte da caridade. Esta verdade é, também, o ponto mais sublime da
nossa participação no mistério de Jesus Cristo e da sua experiência de amor
divino.
Uma tríplice dimensão compõe esta nossa
experiência decisiva: somos amados por Deus. Ele amou-nos primeiro, antes
de qualquer resposta nossa de amor e a grande manifestação do Seu amor por nós
foi o dom do seu próprio Filho, Jesus Cristo (cf. 1 Jo 4, 9-10). Podemos
amar a Deus; respondendo ao Seu amor, o que sublinha a nossa dignidade de
filhos de Deus e irmãos de Jesus Cristo. A principal manifestação desta
capacidade de amar a Deus é o podermos amar os irmãos com esse amor
novo, que tem a sua fonte em Deus. “Bem amados, amemo-nos uns aos outros,
porque o amor é de Deus e todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece Deus”
(1 Jo 4, 7).
Não admira, assim, que nesta caminhada para o
Pai, João Paulo II realce especialmente, neste ano, a virtude teologal da
caridade: “A caridade, na sua dupla face de amor a Deus e aos irmãos, é a síntese
da vida mortal do crente. Ela tem em Deus a sua nascente e a sua meta de
chegada” (TMA, n.º 50).
Descobrir Deus é saber-se amado por Ele e
partir dessa experiência para a urgência do amor dos irmãos. Ouçamos o Apóstolo
S. João: “Bem amados, se Deus nos amou tanto, devemos também amar-nos uns
aos outros” (1 Jo 4, 11).
Na sua busca de Deus, o homem encontra na
caridade, enquanto amor sublime dos irmãos, o próprio mistério de Deus. Seja
qual for a sua obscuridade ou dúvida, quem pratica a caridade não é ateu,
porque já tocou o mistério vivo do Deus amor. “Se nós nos amarmos uns aos
outros, Deus permanece em nós e o seu amor realizou-se em nós” (1 Jo
4, 12). Ao contrário, por mais entusiastas que sejam as suas profissões de fé
em Deus, “quem não ama não conhece Deus, porque Deus é amor” (1 Jo
4, 8).
Deus é comunhão de Pessoas: a Santíssima
Trindade
17. Jesus, ao chamar a Deus seu Pai e ao identificar-se como Filho de
Deus, conduz-nos à intimidade misteriosa do próprio Deus. A revelação de
Deus como Pai é o ponto alto da mensagem de Jesus. Não estamos
perante uma alegoria a partir da fraternidade humana, mas perante o mistério da
única fraternidade total enquanto comunicação de vida e de amor, de que a
fraternidade humana é, apenas, uma ténue participação. Como diz S. Paulo, “É
de Deus Pai que toda a fraternidade, no Céu e na terra, recebe o nome” (Ef
3, 15).
A revelação da fraternidade divina é a porta
aberta para a compreensão de Deus como comunhão de pessoas, na Trindade, e para
a nossa elevação à filiação divina, no mistério da salvação. Esta é, afinal, a elevação do homem à
comunhão de vida e de amor que existe plenamente em Deus. Depois de Jesus nos
ter revelado o Pai, ficamos a saber que o nosso Deus, único Deus, é Trindade de
Pessoas, iguais na essência divina, diferenciadas na relação que têm com a
Fonte da vida e do amor, diferença essa que define a especificidade da sua
missão em termos de salvação da humanidade.
O que há de comum entre o Pai e o Filho? O dom total da vida e do amor. Cada um
d’Eles dá ao outro tudo o que Ele próprio é. a vida íntima de Deus é uma
permuta infinita no interior de Deus, uma auto doação contínua entre o Pai e o
Filho, no Espírito Santo. Por isso Jesus pode dizer: “Eu e o Pai somos um”.
Usando a linguagem da patrística, de algum
modo podemos dizer que há um certo “auto-esvaziamento de Deus”, do Pai
no Filho e do Filho no Pai. Em Cristo é esta sua essência de Filho que se
concretiza no dom total da sua vida para a redenção do mundo. “O Pai ama-me
porque dou a minha vida para voltar a tomá-la. Ninguém Me tira a vida; eu dou-a
livremente. Tenho poder para a dar e para voltar a tomá-la. Este é o mandamento
que recebi de meu Pai” (Jo 19, 17ss).
E o que há de diferente entre o Pai e o Filho? O Pai é a fonte do amor e da vida; o Filho é
o que recebe, de Deus Pai, a plenitude da vida e do amor, para voltar a dá-los
totalmente ao Pai, no Espírito Santo. O Pai é o que ama, o Filho é o amado que
retribui amando. Esse novo amor, mútuo e eternamente dado e retribuído é o
Espírito Santo. Como afirma a Comissão Central do Jubileu no documento “Deus,
Pai de Misericórdia”: “Se se pode compreender a Trindade de amor que se
esvazia a si mesmo, então talvez se torne clara a razão da “falta de rosto” do
Espírito Santo. Ele existe como Espírito comum ao Pai e ao Filho, Espírito de
amor. Deseja ser anónimo, porque não cuida de Si, mas só de unir o Pai e o
Filho. Num certo sentido, no Espírito Santo a divindade mostra a sua perfeição
mais radiosa: atinge o puro esvaziamento no anonimato. E, no entanto, é o
Espírito de amor que mais caracteriza a Trindade inteira, como amor.
Perdendo-se a si mesmo no Pai e no Filho, o Espírito encontra-se a si mesmo no
Pai e no Filho” (1).
18. No desígnio da salvação, a nossa participação na comunhão trinitária
só podia acontecer na situação de Filhos, “filhos no Filho”, recebendo
do Pai, por Cristo, o dom da vida e do amor, voltando a oferecer a Deus Pai,
por Cristo e em Cristo, toda a nossa vida, em acto de amor e de louvor. Estamos
perante a essência do culto cristão. Entramos na intimidade da relação de Jesus
com o Pai, podendo, como Ele, em manifestação de ternura, tratar Deus por “Abba”:
“Abba, ó Pai”. É o próprio Espírito Santo a exprimir-se também na
nossa relação filial com Deus, por Jesus Cristo.
Convidados, neste ano, a mergulhar no mistério
do Pai, somos atraídos para a intimidade com a Santíssima Trindade através de
todas as expressões do amor-caridade: a oração, a celebração dos mistérios da
Fé, o acolhimento da Palavra, a existência toda vivida ao ritmo da Caridade.
V. Os caminhos da
busca de Deus: interpelações pastorais
19. Que pode significar, para a Igreja, esta proposta pastoral de
aprofundar o mistério de Deus Pai, primeira Pessoa da Santíssima Trindade? Que
opções pastorais são sugeridas?
Significa, antes de mais, tomar a sério a
actualidade do desígnio salvífico de Deus e tudo fazer para que ele se realize,
em Igreja. Neste contexto ganham relevo e prioridade os dois primeiros
mandamentos da Lei de Deus: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como
a nós mesmos. Eles resumem toda a revelação de Deus e toda a doutrina da
Igreja.
Apontamos a seguir algumas linhas de acção
pastoral que, concretizadas pelas comunidades cristãs, as levarão a encontrar
as exigências vitais da nossa fé em Deus. É urgente evitar o contra-senso de
acreditar em Deus e viver como se Deus não existisse.
A reconciliação e a penitência
20. Como já dissemos atrás, inspirados na parábola do filho pródigo, a
redescoberta de Deus como Pai de misericórdia tem sempre o seu quê de regresso.
Tomar a sério a vontade salvífica de Deus, para cumprir os mandamentos, exige
de todos nós uma profunda e contínua conversão, que passa pela reconciliação
com Deus e com os irmãos. É preciso repensar os critérios naturalistas que
inspiram os valores e influem nas opções morais de tantos cristãos; há, por
vezes, nas comunidades cristãs, divisões e tensões que contradizem a caridade,
mas que é preciso ultrapassar, pois só assim a Igreja será, no seio da
sociedade, sinal de paz e de concórdia; a doutrina da Igreja e o seu Magistério
são relegados para o campo da opinião, caindo-se numa visão intimista e
individualista da consciência; a ausência de oração não permite penetrar no
mistério do nosso Deus e descobrir aí o sentido da vida e do amor.
Não há redescoberta de Deus sem conversão do
coração. O Santo Padre convida-nos a valorizar pastoralmente o sacramento da
Penitência como meio de conversão. A proclamação da Palavra deve preparar
os crentes para essa celebração e os sacerdotes são convidados a privilegiar,
durante este ano, esse aspecto do seu ministério. É aconselhável, sobretudo nas
grandes cidades, estabelecer lugares, Igrejas ou Santuários, onde essa
celebração seja frequente e particularmente cuidada do ponto de vista
litúrgico.
A ousadia da caridade
21. Ao propor a caridade como virtude teologal a privilegiar neste ano,
o Santo Padre desafia a Igreja para caminhos ousados de testemunho cristão. A
caridade é a participação, por parte dos cristãos, no amor com que Deus Se ama
a Si mesmo, no seio da Trindade e nos ama em Jesus Cristo. É essa força do amor
divino partilhado que nos torna capazes de viver segundo os mandamentos do
Senhor. Todas as virtudes morais são concretizações da caridade. Na linha da
Carta Apostólica Tertio Millenio Adveniente de João Paulo II,
sublinhamos algumas concretizações da caridade:
- A opção preferencial pelos pobres e
marginalizados. Esta perspectiva claramente referenciada no Evangelho
(cf. Mt 11, 5; Lc 7, 22), a Igreja é convidada a concretizá-la
nas circunstâncias reais do mundo actual. A preferência dada aos pobres exige
de nós, antes de mais, a luta pela justiça, “num mundo, como o nosso,
marcado por tantos conflitos e por intoleráveis desigualdades sociais e
económicas” (TMA, n.º 51). Esta atenção dada aos pobres e
marginalizados significa, entre nós: apoio às famílias mais carenciadas
a quem tudo falta, tantas vezes, desde a habitação condigna, até à base
económica mínima para a sua sustentação; uma particular atenção às crianças,
frequentemente impedidas de um crescimento equilibrado e sadio, por causa da
instabilidade familiar, da necessidade de um trabalho precoce remunerado, o que
acarreta a carência dos meios de instrução e de educação; solicitude pelas
pessoas idosas, a braços com o drama da solidão e, por vezes, mesmo do
abandono; luta pela promoção da mulher e defesa da sua dignidade,
privilegiando a sua missão de esposa e de mãe, criando condições de trabalho
compatíveis com essa missão.
Perante todos estes desafios sociais, os
cristãos são convidados a uma atenção solícita aos problemas que conhecem, numa
relação de vizinhança, que tenha o calor da fraternidade; mas devem,
igualmente, empenhar-se na transformação das estruturas e das instituições,
pois é preciso lutar pela eliminação das causas da pobreza e da injustiça.
- O amor dos inimigos. Num mundo
doente de guerras e conflitos, com tensões evitáveis entre grupos, mesmo no
interior das comunidades cristãs, somos convidados a ouvir o desafio do próprio
Jesus: “Ouvistes o que foi dito: amarás o teu próximo e odiarás o teu
inimigo. Pois bem! Eu digo-vos: amai os vossos inimigos, rezai por quem vos
persegue; assim sereis filhos do vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,
43-45).
É no amor dos que nos são contrários, tomando
a forma, ora do perdão, ora da abertura à diversidade, que se manifesta a
origem transcendente da caridade. É porque amamos como Deus nos ama, que
manifestamos a nossa qualidade de filhos de Deus.
- A coragem de amar sofrendo. A
caridade é, muitas vezes, vivida na experiência humana do sofrimento, que é
então elevado à qualidade oblativa e redentora do sofrimento de Cristo na Cruz.
A caridade é, então, possível por aquela força do Espírito que é o dom da
fortaleza. O sofrimento humano não o podemos evitar sempre; mas podemos
elevá-lo, com a graça do Espírito Santo, à qualidade do amor redentor. É
também esse o sentido da presença da Igreja junto dos que sofrem, no corpo ou
no espírito. A própria fidelidade cristã exige, frequentemente, esta ousadia da
caridade.
- O diálogo como expressão da caridade
A experiência do Deus Santo faz-nos perceber a
relação que há entre a verdade e o amor, que em Deus constituem a expressão da
santidade. Da união entre a verdade e o amor brota o dom da unidade,
constitutivo da essência da Igreja e sempre expressão da harmonia e da paz.
A base de um diálogo sincero e constitutivo
supõe sempre esta harmonia entre a verdade e a caridade, que só é possível na
humildade. É que a verdade
não é a minha verdade, mas o próprio Verbo de Deus, a que tenho acesso por dom
misericordioso e gratuito, abrindo-me ao amor com que Deus me salva. O diálogo
não pode construir-se, apenas, sobre a tolerância, com o risco de cair no
sincretismo; ele assenta no reconhecimento humilde da verdade a que cada um já
tem acesso, o que supõe a abertura aos outros e a atitude de escuta, que brotam
da caridade.
No próximo milénio, a capacidade de a Igreja
ser para o mundo sinal de unidade e de paz dependerá da profundidade com que promover
o diálogo intra-eclesial. O Papa sugere-nos, para este ano, o diálogo
ecuménico e intra-religioso. Mas mesmo este só será possível e fecundo se
se estabelecer o diálogo dentro da Igreja, construindo uma sã pluralidade
dentro da unidade.
A oração filial como expressão de adoração
22. O terceiro milénio será também o que for a nossa capacidade de, numa
ousadia confiante, em todas as horas e situações, falar ao Pai e escutá-lo à
maneira de Jesus Cristo. O “Pai-nosso” foi para Jesus a oração de todas as
horas. Para Ele rezar era entrar em diálogo com o Pai. As suas primeiras e
últimas palavras neste mundo são para o Pai. Aos doze anos ouve-se pela
primeira vez falar do Pai: “Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu
Pai?” (Lc 2, 49); e na cruz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu
espírito” (Lc 23, 46).
Na oração que ensinou aos discípulos (Mt
6, 9s), repassa a contínua relação filial de Jesus com Deus, seu Pai e aí está
sugerida a pedagogia da oração dos cristãos (2). O próprio êxito da missão de
Jesus é transformado em acção de graças e louvor de Deus Pai: “Eu Te
bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da terra, por teres escondido isto aos sábios e
aos hábeis e o teres revelado aos pequeninos” (Mt 11, 25).
Ano do Pai, terá de ser, para a Igreja e para
cada um dos cristãos, um ano de oração. A isso nos interpela o Santo Padre: “O Jubileu,
centrado na Pessoa de Cristo, torna-se, assim, um grande acto de louvor ao Pai:
Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos céus
nos abençoou, com toda a espécie de bençãos espirituais em Cristo. Foi assim
que n’Ele nos escolheu antes da constituição do mundo, para sermos santos e
imaculados diante dos seus olhos” (Ef 1, 3-4, in TMA, n.º
49).
Isto supõe uma pedagogia da oração e contemplação.
A Igreja, na sua acção pastoral, tem de ser mestra da oração. A oração
litúrgica e a meditação da Palavra de Deus são as traves mestras dessa
pedagogia.
Redescobrir a dimensão do sagrado e do
trancendente
23. Este empenhamento de viver com sentido e redescobrir o sagrado das
nossas vidas, expressa-se, antes de maism pela capacidade de estabelecer
prioridades e encontrar em Deus e na transcendência a prioridade das
prioridades, que dá força e sentido a tudo o mais. Jesus expressa-o, logo no
início da sua vida. Quando da perda e encontro no templo responde a sua Mãe: “não
sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?”. A perda de referências,
a confusão da hierarquia dos valores são fruto do secularismo. E este é o
excesso de sinal contrário, quando, sem equilíbrio, se quiser reagir a um mundo
excessivamente sacralizado ou até clerical. Há que descobrir o valor do
secular sem perda do sagrado.
Um mundo secularizado, sem Deus, perde as
referências fundamentais e entra em auto destruição. Os valores, para o homem sem transcendência,
tornam-se arbitrários, manipuláveis segundo os interesses dos mais fortes ou
pautados pela força das audiências. Há um perigoso secularismo que se manifesta
na sujeição ao que ditam as estatísticas ou os votos da maioria. O homem que
daí resulta, porém, não tem horizontes, torna-se banal, no trabalho, no
divertimento, na cultura e pode chegar mesmo a não saber apreciar a própria
criação e condição humana, porque se sente tentado a vivê-la como uma
fatalidade.
Ora, o Cristianismo apresenta-se como a
religião da esperança: define uma meta para o homem e para a história, conhece
o caminho e possui a força para o atingir.
O desafio jubilar que este ano nos apresenta é
precisamente viver a vida e situar-se na história, partindo do princípio sólido
da nossa esperança: Deus existe, é nosso Pai, tem desígnio para a humanidade,
tornou-o possível em Jesus Cristo. Não podemos acreditar em Deus e viver como se Ele não existisse e não
tivesse vindo ao nosso encontro.
A utopia de um mundo novo e de uma civilização
do amor
24. Este terceiro ano de preparação do Grande Jubileu propõe um olhar
misericordioso sobre o mundo que não se divide entre bons e maus, entre crentes
e não crentes, mas entre “caminhantes” que, após as quedas, se levantam com a
humildade e fortaleza de ultrapassar o próprio egocentrismo e pragmatismo
característicos deste tempo, e aqueles que, ao contrário, se instalam em
ideologias e leis alternativas, à sombra de ídolos enganadores, como o dinheiro,
o poder e o sucesso, julgando poder realizar-se num mundo sem amor. Mas, de
facto, a História demonstra-o, claramente: nem a política, nem o progresso
da técnica ou das ciências, mesmo as sociais, podem substituir o homem ou só
por si dar-lhe a felicidade. Elas são para o homem e não o homem para elas.
Esta Carta, para além de alargar os horizontes
sobre Deus e o seu significado, quer proporcionar modos e ocasiões concretos
para uma mudança interior e exterior, no pensar e no agir; quer propôr um
estilo de vida evangélico, pobre e confiante, de quem viu o Pai e recebeu o seu
abraço. Aproximar-se do Jubileu é abandonar tudo aquilo que nos impede de
amar e de nos deixarmos amar.
Só rompendo cadeias de mentalidades e
auto-suficiências mesquinhas, mais ou menos disfarçadas, poderemos dizer a
Deus: “meu Pai” – Abba! (cf. Rom 8, 15). Pode parecer
“contra cultura” propôr, num mundo dito “pós-moderno”, um tal caminho de
renúncia e humanização. No entanto, a confiança de filhos, que se sabem amados
e perdoados, não é infantilismo nem, muito menos, uma demissão: é pôr-se em
estado de alerta e responsabilização, na ecologia, na ética, na família, no
trabalho, não para fugir ou negar o mundo, mas para caminhar com ele, de forma
criativa, inventando novos circuitos de solidariedade, de justiça e de
esperança. Essa será a justa vivência da caridade, reflexo do amor do Pai.
O anúncio do Deus amor
25. Ano do Pai, este ano pré-jubilar tem de ser, para a Igreja, uma
ocasião de anúncio do mistério de Deus, do seu amor por nós, manifestado em
Jesus Cristo. Por todas as formas de anúncio da Palavra, com particular
relevo para a pregação, pelo testemunho da oração e da caridade evangélica, falemos
de Deus às pessoas, aos homens e mulheres nossos contemporâneos. Em termos
de evangelização, essa é a maior urgência dos nossos dias. O Jubileu será,
assim, um ano de proclamação da graça do Senhor.
VI. Com Maria, filha
predestinada do Pai
26. O itinerário da fé de Maria inspira a nossa caminhada de conversão:
parte de uma intimidade com Deus para, na fidelidade a esse mesmo Deus,
acolher, no seu seio, Jesus Cristo, o Verbo de Deus-Pai. Na intimidade com o
seu filho Jesus, redescobre o seu Deus como Pai, de quem é filha predilecta; e
descobre-se irmã e Mãe de todos os discípulos de seu filho.
Ainda hoje, a revelação de Deus como Pai,
feita por Jesus, acontece no âmbito do mistério da maternidade divina de Maria.
Quis Deus que a sua descoberta como Pai, feita por cada um de nós, aconteça e
se aprofunde no regaço de Maria, nossa Mãe. “A sua maternidade, iniciada em
Nazaré e intensamente vivida em Jerusalém, aos pés da Cruz, será sentida neste
ano como afectuoso e permanente convite dirigido a todos os filhos de Deus,
para que regressem à Casa do Pai, escutando a sua voz maternal: “Fazei
tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5, in TMA, n.º 54).
Quis Deus, ao criar-nos, que descobríssemos o
amor, na experiência de sermos amados por um pai e por uma mãe, unidos na
comunhão do seu amor esponsal.
No mistério da salvação, continua Deus a
querer que descubramos a intensidade do seu amor paternal, abandonando-nos no
regaço maternal de Maria. Ela alimenta-nos com a intimidade insondável do seu
amor esponsal ao Deus Altíssimo, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e Nosso Pai.
Fátima, 22 de Setembro de 1998
ÍNDICE
I. Introdução
II. O homem contemporâneo perante o problema
de Deus
- A variedade dos caminhos da busca de Deus
- Cristo é o caminho da Igreja para chegar a
Deus
III. O Deus da Aliança
- O Santo nome de Deus
- Deus criador e fonte de vida
IV. O Deus de Jesus Cristo
- Meu Pai e vosso Pai
- Deus é, para nós, um Pai de misericórdia
- Deus é amor
- Deus é comunhão de Pessoas: a Santíssima
Trindade
V. Os caminhos da busca de Deus: interpelações
pastorais
- A reconciliação e a penitência
- A ousadia da caridade
- A oração filial como expressão de adoração
- Redescobrir a dimensão do sagrado e do
transcendente
- A utopia de um mundo novo e de uma
civilização do amor
- O anúncio do Deus amor
VI. Com Maria, filha predestinada
do Pai
Notas
(1) Comissão Teológico-Histórica do Grande
Jubileu do Ano 2000, Deus Pai de Misericórdia, ed. Paulinas/Comissão
Nacional, Lisboa 1998, pág. 27.
(2) Cf. Ibidem, Cap. IX.
Siglas
CIC Catecismo
da Igreja Católica, apresentado por João Paulo II no dia 11 de Outubro de
1992.
DV Dei
Verbum, Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Revelação
Divina.
GS Gaudium
et Spes, Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no
mundo actual.
RH Redemptor
Hominis, Encíclica de João Paulo II sobre Jesus Cristo Redentor do Homem (4
de Março de 1979).
TMA Tertio
Millenio Adveniente, Carta Apostólica de João Paulo II sobre a preparação
para o Jubileu do Ano 2000.
Nas citações bíblicas são utilizadas as abreviaturas
comuns.