Que tanta dor e tanta esperança não sejam em vão
O acontecimento trágico que fica a assinalar historicamente o Natal de 2004, é de uma dimensão que exige que não passe para as segundas e terceiras páginas dos jornais sem que o reflictamos com o mínimo de atenção. Não podemos passar por ele como "gato por brasas".
Eis as breves reflexões que proponho.
Em primeiro lugar, note-se como, mais uma vez, é uma região cujo tom dominante ainda é a pobreza a ser afectada. Os pobres parece que têm vocação a sofrer, sempre, cada vez mais. Se todo o sofrimento é uma interrogação sem resposta, então o sofrimento dos pobres aparece-nos como escândalo.
No entanto, esta catástofre, por várias circunstâncias, assumiu um aspecto diferente, porque fez irmanar profundamente no sofrimento pobres e ricos, reduzindo-os à mais elementar igualdade. A variedade e quantidade de vítimas mortais ocidentais, como se sabe, deveu-se à grande concentração de turistas por ocasião das férias de passagem de ano. Os naturais dali morreram porque são dali, viviam muito provavelmente como comentava um especialista em condições de ordenamento do território muito deficientes. Os ocidentais, em grande número também, morreram no gozo das suas férias, símbolo da proverbial abundância ocidental. Não quero com isto menosprezar a dor dos europeus, simplesmente e pelo contrário, realçar a radical igualdade no sofrimento e na dor.
Em qualquer caso, não pude deixar de pensar, do meu ponto de vista de europeu, em quanto nos é necessário meditar na relatividade da segurança material, na fragilidade da abundância material que proporciona as férias, as festas, e que se esboroa como um castelo de cartas diante destas manifestações da natureza.
Uma segunda ordem de lições se impõe considerar. A natureza não é moralmente má e, além disso, é ainda, e sê-lo-á sempre, muito difícil prever fenómenos como este com toda a precisão de modo a evitar tão avultadas perdas humanas.
É neste contexto que não podemos nunca esquecer que a maldade dos homens é capaz disto e muito mais. Só as duas bombas atómicas do Grande Guerra de 1939-45, no Japão, causaram pelo menos tantas mortes simultâneas como este maremoto. E as guerras, civis e outras, que povoam constantemente a comunidade internacional, e as gravíssimas injustiças que agravam secas ou inundações ou epidemias potenciando-lhes avassaladoramente as consequências mortíferas? Esses são factores de destruição e sofrimento que dependem de vontades livres e responsáveis; são factores seguramente mais destrutivos do que toda a natureza junta. Além disso são factores previsíveis e influenciáveis; influenciar positivamente a natureza é muito menos acessível do que influenciar positivamente o coração dos homens. A natureza é surda, os homens pode ao menos esperar-se que não o sejam.
Espera-se, por isso, que a coligação de solidariedade sem precedentes para lutar contra esta catástrofe sem precedentes, sirva de exercício para outras coligações mais profundas, que tenham em mira as misérias humanas causadas não pela natureza mas pela própria humanidade, coligações que atirem à raiz das gravíssimas injustiças, dos ciclos viciosos de pobreza em que tantos pobres se vêem enredados; deve esperar-se que os mesmos que agora tomam decisões importantes para o auxílio destas populações, tenham a coragem também de tomar as outras decisões que se impõem, nomeadamente no auxílio estrutural e estruturante às nações atoladas no subdesenvolvimento, na promoção do "funcionamento equitativo das organizações de comércio internacional", como recorda o Papa João Paulo II na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano.
Todos nós que cheios de boa intenção vamos agora partilhar dos nossos bens para ajudar à reconstrução daquelas sociedades, precisamos de nos convencer de que são precisos muito mais sacrifícios para lutar globalmente contra a pobreza.
Que tanta dor e tanta esperança não sejam em vão.
Pe Pedro Miranda